ESPEROU SE APOSENTAR PARA SÓ DEPOIS ENLOUQUECER…

(ATENÇÃO: Esta é uma obra de ficção, qualquer semelhança com nomes, pessoas, fatos ou situações da vida real terá sido mera coincidência. Esse texto TAMBÉM contém sarcasmo, ironia, sátira. Talvez uma pequena quantidade de drama. Ao persistir a incompreensão, não se renda, POR FAVOR leia de novo.)

Maquiavel, em seu manual sobre política e estratégia de governo e outras coisas mais, humildemente aduz (posto que era apenas secretário) que se ao príncipe cabe um melhor conhecimento da plebe que governa, o contrário também é verdadeiro. A plebe, por olhar da planície o alto do cume – tem uma visão ‘privilegiada’ … Não sei.

Que generais conheçam bem a vida de seus soldados, isso até pode ser verdade, mas só ‘no geral’. Os detalhes, dentre os quais: A fome das 02h00min da madrugada. O grito numa abordagem sem supremacia de força. O choro ao ver a vida da criança ceifada pela ‘bala perdida’. A revolta em ficar devendo na farmácia e no mercado por causa do salário defasado e parcelado. O sangue – seu, de um cidadão ou de um bandido. O braço torcido ou quebrado, tentando algemar o adolescente marombado, de 17 anos 11 meses e 29 dias que ficará apenas ‘internado’… Mesmo que tenha assassinado toda uma família.

O terceiro turno de domingo, de sol escaldante cumprindo um PB sem sentido, na frente da agência bancária. O primeiro turno de uma segunda pra terça-feira com frio de renguear cusco, fora do módulo que foi terminantemente proibido de entrar. O isolamento numa favela num final de semana sem comunicação e apenas com um revolver na cintura. A depressão e a loucura que podem acompanhar uma merecida aposentadoria… SÃO ‘privilégios’ somente de quem viveu e VIVE na pele, as nuances de ser policial de RUA.

Ele com certeza as viveu e não por três horas ou três dias. Por três décadas.

Cavalcante era o nome dele. Mas podia ser Cabo Ribeiro, Cabo Silva, Cabo Oliveira, Cabo Demência ou Cabo do Medo. Soldado por trinta anos, foi promovido a Cabo ao aposentar-se. Os dias que antecederam a sua reserva foram-lhe sofríveis.

Já estava com 56 anos e com oito dentes a menos e não gostava daquele sentimento fatalista, que lhe acompanhava antes do apagar das luzes, de que – quando de serviço a pé na rua – atrás do próximo poste ou árvore, algum bandido o estaria esperando para alvejar-lhe o peito, já encatarrado pelas pneumonias mal saradas do passado.

Mas, enfim chegou o grande dia… Para si, obviamente, porque o sistema mantinha-se indiferente com a grande mudança que nos próximos dias lhe ocorreria. Nada que o surpreendesse, pois já havia visto muitos colegas passar pelo apático e insensível ‘portão’ que separa os da ativa para os da inatividade.

Nada de festa de despedida, nem abraços apertados, nem um até breve, nem um ADEUS. E se houvesse essas quermesses, até que ponto seria realmente RESPEITO pelo veterano e onde começaria os floreios… A obrigação puramente protocolar?

Já antes de se aposentar, um mal começou a rondar-lhe o espírito e a cabeça. Como se não bastasse o receio exacerbado da delinquência em geral, que crescera traumaticamente nos últimos anos, havia adquirido uma desmemoriação absurda, que beirava a demência e/ou o Mal de Alzheimer, mas que tentava esconder dos demais a todo custo, pois temia não o que pensariam de si, mas que houvesse alguma forma de preconceito para com a sua família, que tanto havia protegido durante a vida.

Em casa, as coisas andavam mal. Desconfiava que os filhos de sua vizinha viúva, além de serem bandidos, estavam se insinuando para a sua mulher. Seguidamente ouvia barulho em cima do telhado. Dormia apenas com um olho.

Instalou dois holofotes em cima da casa e ao menor barulho, corria para fora de cueca e revólver na mão, acendia as luzes e gritava a todos pulmões, escondido atrás do magro pé de limão: – Desce daí VAGABUNDO! – Algumas vezes, chegou a pegar a escada e deu uns três a quatro tiros em direção a uma sombra que se movia, sem se aperceber que era a sua própria.

Leide, a esposa do reformado, várias vezes ligava para o 190, mas com pena do marido e vendo que sua crise já havia passado, retornava a ligação e dizia que já estava tudo bem, ao ponto de ocorrer que quando o atendente via que era ela que estava ligando, ficasse sensibilizado com o inativo e desconfiasse que a ‘louca’ era a sua mulher.

Certo dia, Leide acordou sobressaltada, com tiros vindos de fora. Olhou para o lado e o marido não estava. Ouviu quando ele gritou lá do pátio: – Saiam pra fora jaguarada! – Havia colocado somente as calças e antes que ela pudesse se vestir por completo e abrir a porta para ver o que estava acontecendo, a porta do quarto abriu com violência e o marido entrou aos gritos: – Hãhãn sua serigaita… Bem que eu desconfiava. Te peguei tirando a roupa que foi ao baile!?

Leide se separou do marido, profundamente magoada com suas insinuações, pois por mais louco que estivesse o companheiro, não aceitaria, tamanha falta de respeito. Leide foi morar com a filha.

Cabo Cavalcante sentiu o golpe. Alugou a casa em que morava e foi morar numa quitinete num prédio, numa vila qualquer. Procurou ajuda de um especialista. Foi diagnosticado Alzheimer. Como vivia sozinho, se esquecia de tomar a maioria dos remédios. O tratamento não evoluiu. Continuava a ouvir à noite, os passos do vizinho que caminhava no forro de seu apartamento, e não conseguia entender que entre o 2º andar (em que morava) e o 3º andar havia apenas um piso de 40 cm, que os separava.

Sem conseguir desfazer-se do medo, conviveu com ele até o fim de seus dias. Já não sentia mais ciúme… Pois, dormia sozinho, num quarto povoado pela penumbra e as escassas lembranças do valente policial que foi no passado.

E longe de sua ingrata esposa (produto de sua mente) que fugiu com os filhos de sua vizinha viúva, martirizava-se por não ter por perto o seu fiel amigo, o Taurus 6 polegadas, que poderia lhe ajudar a dar cabo nos passos e vozes que houvia, agora vindas debaixo do assoalho do porão do Hospício São Pedro.

Cabo Cavalcante um dia deu adeus ao mundo, lutando bravamente contra todos os bandidos que prendeu durante a vida e que numa terça-feira chuvosa qualquer RESOLVERAM sair do telhado, do teto, das paredes e do piso e lhe comprimiram e sufocaram a garganta até a derradeira morte.

Não houve honras fúnebres a mais esse VALENTE MILICIANO tombado na luta silenciosa e solitária com seus monstros… Não houve toque de corneta, afora os tristes pios da coruja e da pombinha rola que, do alto de um ipê florido, testemunharam sua última e fatídica batalha.

E assim termina a história do Cabo Cavalcante, que como a de tantos outros guerreiros, foi consumida pelo tempo e pelas larvas, jogado numa vala, ao lado do túmulo do soldado mais proeminente dos cemitérios – O SOLDADO DESCONHECIDO.

” O gênio e a loucura, provêm, por igual, de uma anormalidade; representam, de diferentes maneiras, uma inadaptabilidade ao meio.” (F. P.)

A RUA FELICIDADE NO MAPA

Refletindo sobre felicidade e a vida fútil e demasiadamente acelerada que levam os nobres da Corte da série Game Of Thrones e na ‘carona’, pensando também sobre os menos de 1% de brasileiros que vivem no alto e apertado último degrau da pirâmide social, em sua novela diária de luta para não cair; uma novela destemperada e desequilibrada por overdose de wisque, ilusão, intriga, inveja, ambição, neurose, covardia, hipocrisia, corrupção, guerra, violência e cocaína.

Chego à conclusão de que leva uma vida bem menos irreal e infeliz, do que a maioria imagina, o ser humaninho, que conseguindo passar ao lado de toda essa podridão (e daqueles que conscientes ou não, buscam e alimentam esse tipo de vida), dela não se contamina.

E – desde que não seja um completo imbecil – CONDUZ seus últimos dias sob o sol, cultivando sua hortinha de especiarias, seu pomar de jabuticabeiras, parreiras e laranjeiras, sua grama; que aprende a linguagem da cauda e do olhar de seus animais domésticos. Que sempre acha um tempo para parar, respirar e pensar…. Procurando a forma mais honesta de dar e receber o máximo de AMOR PURO daqueles espíritos que no decorrer dos dias (e das noites), têm se mostrado – os mais CAROS.

Vamos falar sério, quantos desses figurões (e fanfarrões) sabem o prazer que se tem ao pescar alguns lambaris ali na volta das pedras na Prainha do Prado. Da conversa honesta, fácil e despretensiosa com os primos Armerindo, Calo e o Airton. Do concreto feito à mão, com a mão do pai e do irmão. De abrir as janelas da casa pela manhã e ver a passarinhada a ciscar minhocas no gramado e a roubar ração da tigela dos cuscos.

Quantos deles sentam com seus pais e tomam – PARCIMONIOSAMENTE – um chimarrão, enquanto falam de um passado de superação, numa tarde de terça-feira chuvosa?

Mesmo para eles (Os NOBRES) que podem ir almoçar no Caribe ao meio dia, pescar salmões no Alasca à tarde, nadar no Mediterrâneo no entardecer ou pernoitar à noite em Dubai, NÃO lhes é permitido ficar (assim como eu) junto de sua filhinha de 5 anos todas as manhãs. Falta-lhes o pasmo essencial que só existe nas coisas naturais e simples!

Colocar uma roupinha limpa e perfumada quando ela se acorda, lavar-lhe o rostinho, fazer um delicioso copo de leite com sucrilhos, assistir junto com ela a Peppa Pig e depois caminhar nove ou dez quadras pelo bairro… E enquanto dançamos com nossas sombras, ir lhe mostrando os singulares quadros, da galeria VIDA, que vão aparecendo a nossa frente a cada passo que demos sob o olhar atento do sol, na rua FELICIDADE.

É fato. A felicidade realmente não tem preço. Um mapa talvez, mas muito pessoal e singular. Um mapa construído com as tintas da sensibilidade, simplicidade e da lucidez com certeza. Um mapa complexo demais para a velocidade das lebres. Perfeito para o planar leve e atento da águias!

” Ao sentir a coerção exterior, certos indivíduos não se abaixam, nem se contaminam: apartam-se, refugiam-se em si mesmos, para se elevarem a um extremo, de onde contemplam o arroio lamacento que corre murmurando, sem que no seu murmúrio, se ouça um único GRITO.” ( J I., O Homem Medíocre)