Um negrinho qualquer

 

 

 

Dia 1º deste setembro, participei de uma reunião da Associação dos Oficiais da Brigada Militar, lá no Parque da Harmonia, para onde se espera que acorrerá, nos próximos dias, uma multidão de gaúchos pilchados ou não, para os festejos comemorativos da Semana Farroupilha, que dura mais que isso.

Em face do que vem ocorrendo no e com o Rio Grande, alguns nem mais vestirão os trajes típicos. Falo dos servidores públicos estaduais do Poder Executivo, pois aquilatam que o Patrão da Estância de São Pedro, vem, com os seus atos, com sua omissão e até acintes, lhes humilhando por demais.  Diante de algumas evidências, cuja matemática ajuda a entendê-las, consentem que ele age nestes termos de maneira proposital. Nada de incompetência, mas sim por mera opção preferencial para atender setores que lhe possam ser de mais valia logo a seguir, como também ao seu Partido, o PMDB.

Ainda, corre sentimento na gauchada que o seu Patrão Mor é injusto e que não enfrenta a crise que é anunciada, com a coragem que marcou tantos estadistas que o pago produziu. Parece duro dizer e consentir isso, mas quando segue tratamento privilegiado para alguns e desconsideração para outros, alguma razão existe, até porque o tributo quando recolhido não vem gravado para onde se destina. Sua marca é ser geral: todos arrecadam e de alguma forma, todos usufruem, seja por salários, como também pelos serviços que recebem!

Pois esse primeiro dia do mês que se anuncia mais difícil para muitos, com tendência de ocorrer o anunciado, de que o Governador faria de tudo para aproximar a folha de pagamento de setembro com a de outubro e, por tal, chegariam os servidores ao final do ano,  com a percepção de somente 11 salários mensais recebidos. Uma tétrica, abominável e desrespeitosa medida.

Quem me acompanha sabe que evito falar em questões salariais, porque conheço um tanto da realidade do Estado e de muito tempo, como também coadjuvei governantes e assim, via exposição desrespeitosa  atuar  com ênfase nessa incômoda situação. De início falei com pessoas próximas ao Governador, digo até amigos em comum e tudo vi consentindo  conviver com o sacrifício, porque a intenção era boa e as medidas de largada tenderiam a firmar um bom fim. Mero equívoco, pois saudei esse dia primeiro, por ter assistido mais uma apresentação, altamente didática e com demonstração de números, por um qualificado profissional do Fisco Estadual, onde descortinou as equivocadas opções da  gestão financeira do Estado. Uma exposição sem reparos, porquanto diagnosticava o problema e indicava soluções de curto e médio prazo para sairmos da dita crise. Mas para tanto bastava que o Governador enfrentasse algumas corporações, empresariais também, dentre várias medidas que a todos alcançava.

Finda apresentação, a perplexidade tomou conta do ambiente, que mesmo salutar, de congraçamento e de recepção ao nosso Comandante Geral, ao qual teço loas pela sua qualificação e excelente condução da Força de Massot, muito embora paire algumas insatisfações na tropa, mas que jamais podem a ele ser dirigidas, dada a sua abnegação e empenho em dar as melhores respostas que a capacidade dos integrantes da Corporação podem dar,  em conta desse momento tão difícil de salários parcelados, que chega até ao cume da desmoralização e da baixa da estima do servidor.

Muito significativa, de forma inteligente e respeitosa, o Presidente da Associação dos Oficiais declinou as palavras finais ao Coronel mais antigo em tempo de serviço e idade que lá acorreu vindo da cidade de Pelotas, cujo seu condutor foi seu filho, um Engenheiro Civil que sustou sua faina do dia, para nos prestigiar com seus préstimos. Pois então, o Coronel Alberto da Rosa, nosso estimado e respeitado Coronel ROSA, do alto dos seus 93 anos de vida nobre e altiva, de uma cultura invulgar, experiência de vida, respeitabilidade e total acato no nosso meio, à despeito de tudo que  conhecemos naquele dia, tratou de concitar que não perdêssemos a crença no Comando e que seguíssemos unidos para esse grande enfrentamento, porque a sociedade confia e precisa da tradicional higidez e responsabilidade dos brigadianos. Ainda, ressaltou que é muito grato pelo tanto que recebeu da Brigada, pois esta lhe deu até posição social, pois dada a sua origem étnica e econômica, poderia, hoje e na sua vida ser apenas considerado um “negrinho qualquer”!

Para nós, seus colegas mais novos, séquitos de suas belas lições, também consentimos o quanto a Brigada nos propiciou, talvez nem tanto conhecimento, experiência e cultura como se evidenciam os grandes atributos do Orador em causa, mas o quanto nos permite ver quem é do bem e quem nos humilha e,  ao invés de nos tratar afetivamente como negrinhos comuns, pensa-nos no sentido pejorativo, ao ponto de julgar que nossa humildade possa ser confundida com a submissão dos fracos. No devido tempo terá a resposta que possa surpreender!

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