Opção profissional

Nelson Pafiadache

30 de Março de 2017 – nelson.pr@terra.com.br
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    Dia desses, em auxílio a uma das minhas filhas que tratava de selecionar livros pelo encerramento de um ciclo de estudo e início de vida universitária, nos deparamos com o Robinson Crusoé, momento em que fiz uma longa viagem no tempo e com algum esforço busquei reproduzir uma passagem do livro que, nas páginas iniciais, reportava-se a um diálogo do jovem que se propunha a uma aventura pelos mares, sem desse nada conhecer, em detrimento de seguir pelas terras em que vivia e preparar-se para uma profissão, quiçá um ofício em sequência ao comércio da família.

Lá pelas tantas da minha digressão àquela literatura, minha filha admirada com a minha memória, pois sabia que tinha sido leitura da minha juventude, respondi de pronto que aquilo me tocava muito, pois em algum momento da  minha vida,  tinha algum ponto de contato com o que o livro contava. Centrei então no proverbial diálogo do pai com o filho que buscava desestimulá-lo de aventurar-se. Disse ele ao filho, que as grandes aventuras, cujo resultado poderia ser pífio, só poderiam pertencer aos extremos: aos ricos, que poderiam muito arriscar, pois seguiriam garantidos pelo patrimônio da família e para a ralé, a qual nada tinha a perder, pois nada possuíam. Se desse certo, muito que bom! Recomendava o comedido e apreensivo pai, que aos de posses medianas, que seguissem sem sobressaltos, até buscando dar sequência aos negócios e ofícios  de família, com apego aos livros para garantir uma profissão ou algo do gênero, sem no entanto arriscar além da conta.

Diante disso, era inevitável que sua argúcia não buscasse incursionar nos momentos duvidosos porque passei em dado momento da minha juventude e assim, minha filha  requisitou saber das razões de então para a minha opção profissional. Queria saber se era mera garantia de sobrevivência, espírito de aventura, vocação ou o que mais pudesse me inclinar para buscar as fileiras da Corporação, aos 17 anos de existência na terra.

Talvez esperasse o nobre leitor que eu sacasse de pronto uma resposta para a menina, afinal, já distando tanto tempo, do ano de 1971 quando se iniciou a preparação para disputadíssimo processo seletivo  para ingresso na Brigada Militar e inclusão, em 17 de fevereiro de 1972, mas parei para pensar e evocar aqueles momentos. Assim consenti que tudo foi decisão pessoal,  mesmo qu
e contando com pai e dois irmãos integrantes da Força de Massot, tive total liberdade, mas preciso admitir que o sentimento do meu pai, em muito se assemelhava com a do pai do personagem: nada de aventuras.

Assim, jamais desconsiderei a garantia do emprego, com pitadas de aventuras, claro que comedidas, dada a situação econômico-financeira da família, bem nos termos expostos pelo pai do Robinson Crusoé. Apenas disse-lhe e digo para todos que valeu a opção: sou grato pelo tanto que dela recebi e, se fosse diferente, teria debandado, diversamente do que, por vezes, se recolhe de gente ingrata e mal humorada que se abanca em ante salas de médicos e de laboratórios em espaços comuns aos brigadianos, a externar seu desconforto com as regras a que se submetem ou se submeteram, sem contar a descortesia que dispensam a quem lhes rodeia, notadamente quando em posição mais acima na  escala hierárquica. Aí não é só ingratidão, mas, acima de tudo, falta de educação!

Imagem retirada de: http://www.revistabula.com/1236-etica-livro-13-mandamentos/

30 de Março de 2017 – nelson.pr@terra.com.br
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