O menino que escreveu a carta

Publicado no jcb 227, Setembro de 2014.

O pai do menino que escreveu a carta está preso. A mãe, internada. Se é que ainda está, eis que sempre foge e sempre volta, e volta e foge, e reaparece pior do que sempre, louca de pedra, louca de pinga, louca de louca. E quando fica louca, gosta é de bater. Nele, nos irmãos, nos meio-irmãos. Nada de novo. Quase todos que ele conhece têm essa mania. A vó bate nele se não vende tudo, bate nas gurias antes de arrancar o dinheiro das mãos delas, depois que os homens saem do quarto, suados e rindo, esfregando barrigas, fechando braguetas. Estes homens também se divertem lhe dando uns cascudos. Mas o menino não fala sobre bater, na sua carta. Nem sobre pai. Mãe. Avó.
O menino que escreveu a carta nunca acreditou em Papai Noel. Ele não acredita em fantasias. Em carinho. E amor, fé, ceia, presente, luzes, família e colo estão entre as tantas palavras que não lhe têm qualquer sentido. O natal é só mais um dia que passa, asfixiante, imerso na água fervente de um amuamento tão inflexível quanto irregular e impiedoso. Ele não sabe se sonha. Sonhar? Com o que se sonha? Pra quê? E nunca entendeu muito bem mesmo esse papo de neve em pleno calorão, velhinho vestido de vermelho mostrando preço de TV e videogame, carroça que voa nos panfletos das lojas. Vez ou outra vem um sujeito de barba falsa ali no beco, distribui balas e brinquedos baratos, perde a paciência logo depois de posar para fotos e se vai, deixando a vida como está. A ruela com o mesmo cheiro de lama e carniça. Para este cara, o menino não escreveria uma carta.
O menino que escreveu a carta só sabe, de aprender a saber, que a polícia é inimiga, que o governo é inimigo, que os carros escuros, ou os carrinhos de bebê, ou tudo que corre lá embaixo é inimigo. O sol e o céu, as nuvens e as águas. Inimigos. Menos a sombra. O menino que escreveu a carta vive nas sombras, à espreita. Sobreviver é dar o bote. E ver até onde vai. Ele só escreveu a carta porque os meninos todos também andavam escrevendo cartas, até quem nem era mais menino, pedindo isto e aquilo pra ver se colava. Ele achou que sonhou, e o sonho era a sua vida, menino. Que nem escreveu a carta. Não sabia escrever, pediu para outro. E a afável senhora dona de uma estética, que pegou a carta para embelezar o mundo ao redor, ficou assustada. Contrariada. Decepcionada. Ou nada disso. O menino que escreveu a carta pedia ao Papai Noel uma pistola calibre 40.

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Capitão Oscar Bessi
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O Tenente e a Copa

Publicado no jcb 226, Agosto 2014.

Fernando Pessoa disse que a sensibilidade é pessoal e intransmissível. Talvez o que se possa chamar de dom.
Acompanhei as impressões virtuais de amigos que trabalharam na segurança da Copa do Mundo em Porto Alegre, como o tenente Claudio Bayerle e seu olhar especial. Ele não é apenas um colega de farda, é também irmão de letras. Professor e escritor, organizou a coletânea do conto “ O Outro Lado da Farda “ e tantos outros trabalhos literários. Oficial da Brigada Militar. Hoje no 9º BPM, centro da Capital, coordena cursos de sargentos. Bayerle tem 28 anos de histórias para contar de bons combates. Uma vida. E neste momento histórico – que outras gerações verão uma Copa no país? -, postou com entusiasmo juvenil seus momentos no batalhão Copa e suas atuações no perímetro vermelho, o coração dos eventos.
Bayerle é disciplinado. Para ele, missão dada é missão cumprida, não quer saber de discussões com algum outro viés político. Recebeu a incumbência de proteger e, como tantos outros policiais federais, civis e militares, aí manteve seu foco. Mas se permite um entusiasmo de escritor ao falar das pessoas que conheceu da diversidade, do conhecimento que acumulou. Da troca de lembranças e brasões entre policiais, assim como os jogadores em campo tocaram flâmulas. E se emociona ao citar a banda da Brigada Militar com a torcida cantando junto e quando a ela se juntaram músicos holandeses ou bandinhas alemãs.
É claro que algum problema houve não se reúne seres humanos sem rusgas. Nem show religioso consegue tal milagre. Mas me garantiu: foi quase nada se comparado à multidão que esteve no Beira-Rio e no seu entorno. Cambistas irregulares, ingressos falsos, pequenos furtos. Mais no dia em que vieram os argentinos, eles próprios sendo autores e vítimas da confusão natural. Pouquíssimos casos na comparação com os militares de hermanos que vieram. Contou da surpresa dos alemães com seus fakes no estádio – brasileiros das colônias gaúchas, trajados tipicamente e enrolados em bandeiras. Sentiram-se em casa. Tanto que nos deram aquele baile na semi.
Bayerle que levou da Internet à realidade o sonho da Avenida Fernandão. Falou com comando, prefeito, diretoria do Inter. E um artista brigadiano fez a placa que lá está até hoje em justa homenagem a um ícone de todas as torcidas pelo seu caráter. Agora, é com a Câmara de Vereadores e a EPTC dizer o sim definitivo. Será um belo legado do Mundial. Assim como gesto de Bayerle e de tantos outros ao nos narrar, com dedicação e sensibilidade ímpar, a beleza que foi ter a Copa nos Pampas.

Texto pulbicado no jornal Correio do Povo

 

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Capitão Oscar Bessi
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A nova ordem

Publicado no jcb 225, Jun/Julho de 2014.

O rato pulou a máquina de lavar, rolou pelo azulejo, rastejou sob o fogão e, zás!, voou num salto mortal sobre a mesa. Agarrou o queijo e se mandou. Esperou o tradicional derrubar de vasos, vidro quebrando, porta caindo e gritos de “pega!, pega!”. Nada. Silêncio. Desconfiado, espiou pela fresta e viu Miminho, o gato xerife da casa, no sofá. Nem aí. Sem abalar o seu sono em berço esplêndido. Opa, tem algo errado, pensou, e decidiu tirar satisfação. Feriado felino, por acaso? O queijo estava envenenado? Qual a lógica?
– Lógica da impunidade – resmungomiou o gato, com desdém. Fica fréu, tu tá liberado.
– Liberado? – Roube o queijo que quiser e quando quiser, não dá nada. Os donos que se danem. É a Nova Ordem. Da desordem.
O rato ia argumentar, por que não avisaram antes? Tinha perdido um tempão brigando na escola, ameaçando professor e repetindo de ano (não pegou essa de passar goela abaixo). Soubesse, tinha entrado no crime mais cedo. E sem dividir o butim. Ia reclamar, mas foi interrompido por um grupo de mosquitos da dengue que chegaram zunindo, furiosos.
– Ei, gato! Essa zoeira não tá legal!
– Não tá? Ainda – miou outra vez Miminho, cabisbaixo, observando os insetos do alto dos seus mais de vinte anos de Polícia. Mas já vai estar. Os juristas do Senado estão providenciando. Droga liberada de vez, tráfico sem dar flagrante, e por aí vai.
– Quê? Ah, tá! Nós investimos em armas, gastamos horrores corrompendo meio mundo e ainda picamos mentes sem cessar, só pra manter em alta a febre do consumismo. Tudo redondinho para ganhar um dinheiro fácil honestamente. Pô! Agora, até as moscas vão entrar no nosso negócio. Vão vender crack no sinal em vez de rapadura? Como ficam as nossas aplicações no Fundo Bandalheira? Que injustiça!
– Não é injustiça. É Justiça brasileira, conceito um pouco diferente. O crime sai da lei, melhora a estatística e deu. É o novo combate, que desiste da luta e se entrega de vez – miou Miminho, magoado. E dormiu. Que ele, o gato xerife, não tinha mais o que fazer por ali, com a Nova Ordem.
Os mosquitos da dengue voaram, debatendo-se. Agora, para negociar certos contágios, teriam que pagar licença, imposto, alvará, etc. Seria mais barato que corromper? Melhor botar na ponta do ferrão, quer dizer, do lápis. O rato levou o queijo, mas ficou se perguntando como ficaria aquela cantiga de roda, “Estava o rato no seu lugar, veio o gato lhe fazer mal”. Quem faria mal pra quem, na Nova Ordem? E se assaltassem a pobre da velha a fiar? Polícia na velha? Que confusão! Tinha pena da criançada de hoje, estava perdendo a graça.
Deu de ombros e foi comer o seu queijo, legitimamente roubado, no sol. Sem medo de ser feliz e debochado. Era a Nova Ordem, ué. Quem iria se meter?

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Capitão Oscar Bessi
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Mobilização pelo Trânsito

Publicado no jcb 224, Maio 2014.

O vice-governador do Rio Grande do Sul, Beto Grill, é médico. E a grande maioria dos médicos tem esse jeito preocupado de olhar a humanidade. Salvar vidas é o que os fascina. A gente vê a sinceridade disto ao conversar com eles. Pelo brilho no olhar e uma bela carga de sentimento que não se disfarça. Os bons médicos têm disto. Sentimento. Lembro do saudoso Scliar, em encontros literários na capital. Por mais que a fama, a mídia e o reconhecimento o tivessem colocado num patamar muito acima de nós, escritores comuns a degustar sua presença, ele não perdia aquele jeito de olhar. Cheio de calma e ternura. Ternura de médico. Quando encontro Beto Grill, e nele reconheço este olhar humano, lembro do Scliar. E lembro do Dr. Marcos Müller, da minha cidade, que já perdi a conta de quantas vezes largou o que fazia para salvar a vida do meu pai e da minha mãe.

O trabalho desenvolvido pelo Comitê Estadual de Mobilização pela Segurança no Trânsito, do Gabinete do vice-governador, requer a paciência e a dedicação dos mais complexos tratamentos médicos. O trânsito é um corpo doente, onde muitos órgãos parecem degenerados. As mortes se repetem a todo instante e não há diagnósticos favoráveis. Dramas diários de violência desesperam famílias. Abusos se repetem e se multiplicam.

As condutas no trânsito infelizmente estão permeadas por uma educação umbilical, egocêntrica e exibicionista, despida de humanidade e do simples pensar no próximo. Pressa e prepotência empurram e atropelam as almas. A saturação, a tensão e a asfixia, provocadas pelo desproporcional crescimento do número de veículos automotores que invadem nossas ruas, mostram a pior das faces do capitalismo desmedido: quando só o lucro e a produção importam, só as vendas contam, nada além das cifras monumentais e nenhum espaço, mas nenhum mesmo, para limites éticos ou suportáveis de um contexto sadio. As obras públicas vêm secularmente vistas como normais na mesma proporção em que se tornam a cada dia mais excludentes ou superfaturadas, jogando ao salve-se como puder os demais personagens do contexto, como pedestres e ciclistas, idosos, crianças e cadeirantes. Há lugares por aí onde se promete irresponsavelmente asfalto como mero inimigo do pó, quando, se mal feito, ele vira inimigo é da vida.

Estive no encontro regional realizado no Vale do Caí. Com a parceria da Brigada Militar, policiais rodoviárias, prefeituras e Guardas Municipais de Trânsito, o Comitê conseguiu resultados favoráveis. Mas é um tratamento longo. O médico está disposto, sua equipe mais ainda. Só precisam de uma mudança de comportamento do paciente. Consciência. Pensa que a gente só consiga combater essa doença ao sentir a dor.

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Capitão Oscar Bessi
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A amante intelectual

Publicado no jcb 223, Abril de 2014.

Quinta rodada de chope, em pleno calçadão, e o Mendonça larga aquela.
– Preciso de uma amante.
Três minutos de silêncio. Amante? O Mendonça? Melhor parar com a bebida. “Uma amante intelectual”, completou. Outro silêncio, os amigos se entreolhando. O Silva piscou o olho.
– Entendi. Saia xadrez, óculos na ponta do nariz, caneta na boca? Também gosto.
– Eu prefiro enfermeira.
– Eu, Vamp.
– Eu, ministra da economia.
– Hein?
O Mendonça se irritou.
– Não é fantasia! Quero uma mulher que seja minha parceira não só na questão sexual. Mas que fale comigo. Que converse. Que discuta a brevidade da vida, os rumos do planeta, a nova zaga do Internacional. Que leia Rubem Fonseca e seja idealista.
– Mulheres não leem Rubem Fonseca.
– A minha lê.
– Professora não vale. E professoras não podem ser amantes, são muito inteligentes, o sujeito não consegue enrolar.
– Hum, sei não. Os governos sempre conseguem enrolar as professoras.
– Acham que conseguem. Acham. Mas tu não tá cogitando a minha mulher como amante do Mendonça, tá?
– Vocês podem focar no meu problema? Na minha necessidade?
– Mendonça, tu precisa é de mais um chope.
– Ou uma biaba na orelha. Pra gente tirar foto e postar no facebook. – bradou o Guto.
Gargalhadas. O Mendonça quieto, girando o caneco quase vazio entre os dedos. Os outros começaram a pigarrear, sem jeito. O Silva amenizou a voz.
– Eu conheço uma psicanalista. Pode te ajudar.
– Não quero psicanalista. Quero amante.
– Eu conheço um padre.
– Ei! Olha o respeito!
– Eu quis dizer pra conversar, ué.
– Eu conheço um desentupidor de ralos!
O Mendonça levantou de supetão. Deixou sem dizer mais nada uma nota de cinquenta sobre a mesa e foi embora, irritado. O Silva cobrou, pô, desentupidor de ralos? Não podia pegar mais leve com o cara? Mas é gente fina, bom de papo, retrucou o Guto. Pediram mais uma rodada. Até que alguém gritou, celular na mão, “Caras, ele tá no face!”. Os amigos, emocionados, sacaram seus celulares e entraram a noite conversando com o Mendonça.

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A amante intelectual

Publicado no jcb 222, Março de 2014. 

Quinta rodada de chope, em pleno calçadão, e o Mendonça larga aquela.

– Preciso de uma amante.

Três minutos de silêncio. Amante? O Mendonça? Melhor parar com a bebida. “Uma amante intelectual”, completou. Outro silêncio, os amigos se entreolhando. O Silva piscou o olho.

– Entendi. Saia xadrez, óculos na ponta do nariz, caneta na boca? Também gosto.

– Eu prefiro enfermeira.

– Eu, Vamp.

– Eu, ministra da economia.

– Hein?

O Mendonça se irritou.

– Não é fantasia! Quero uma mulher que seja minha parceira não só na questão sexual. Mas que fale comigo. Que converse. Que discuta a brevidade da vida, os rumos do planeta, a nova zaga do Internacional. Que leia Rubem Fonseca e seja idealista.

– Mulheres não leem Rubem Fonseca.

– A minha lê.

– Professora não vale. E professoras não podem ser amantes, são muito inteligentes, o sujeito não consegue enrolar.

– Hum, sei não. Os governos sempre conseguem enrolar as professoras.

– Acham que conseguem. Acham. Mas tu não tá cogitando a minha mulher como amante do Mendonça, tá?

– Vocês podem focar no meu problema? Na minha necessidade?

– Mendonça, tu precisa é de mais um chope.

– Ou uma biaba na orelha. Pra gente tirar foto e postar no facebook. – bradou o Guto.

Gargalhadas. O Mendonça quieto, girando o caneco quase vazio entre os dedos. Os outros começaram a pigarrear, sem jeito. O Silva amenizou a voz.

– Eu conheço uma psicanalista. Pode te ajudar.

– Não quero psicanalista. Quero amante.

– Eu conheço um padre.

– Ei! Olha o respeito!

– Eu quis dizer pra conversar, ué.

– Eu conheço um desentupidor de ralos!

O Mendonça levantou de supetão. Deixou sem dizer mais nada uma nota de cinquenta sobre a mesa e foi embora, irritado. O Silva cobrou, pô, desentupidor de ralos? Não podia pegar mais leve com o cara? Mas é gente fina, bom de papo, retrucou o Guto. Pediram mais uma rodada. Até que alguém gritou, celular na mão, “Caras, ele tá no face!”. Os amigos, emocionados, sacaram seus celulares e entraram a noite conversando com o Mendonça.

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Capitão Oscar Bessi Filho

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Punição para os covardes!

Publicado no jcb 221, Janeiro de 2014.

A Polícia Civil deu um presente a todos os gaúchos esta semana. A prisão do líder do bando que costumava roubar carros em Porto Alegre. Primeiro, porque é bandido, ladrão, homem de saúde perfeita que não tem e nem quer ter o mínimo de capacidade para trabalhar, fazer força, então vive como sanguessuga do que o trabalho dos outros conquistou. Segundo, pela covardia indescritível praticada contra o idoso com mais de 80 anos, no último dia 13 de setembro, no bairro Petrópolis, na Capital.
Alguém não viu a cena? Vá ao YouTube. Lá está a covardia. Mas se prepare, é de passar mal. Dá um nó de ver. A agressão gratuita, brutal, asquerosa e inacreditável. Filmada. Um grupo de covardes ataca, espanca o pobre idoso – para pegar o carro que é dele, meu Deus, que é dele! – e, não satisfeito, atropela propositalmente o pobre senhor que está caído na rua, gemendo de dor. Este sujeito, este agressor, não é homem. E o que ele é não tenho como colocar numa coluna de jornal. Infelizmente.
Agora vamos acompanhar atentamente o que a Justiça fará com esta fera humana. Porque até os muares sabem que, solto, a única coisa que ele fará é agredir outro idoso, outro inocente, outra vítima desta bestialidade covarde que é o cotidiano do medo.
Encontrar artimanhas e letrinhas benevolentes dentro desta legislação propositalmente enroscada para beneficiar bandido e relaxar a punição deste desequilibrado é jogar o trabalho dos policiais no lixo. É condenar outras tantas vítimas à mesma sessão de tortura. Que os responsáveis por este caso pensem nisto. Assistam o que ele fez. E lembrem que esta ditadura dos bandidos, que torturam inocentes todos os dias, precisa ter um fim. E nem é vingança que se pede. É simplesmente um basta no “não dá nada” para estes torturadores. A impunidade precisa ter fim. Ou seremos, para sempre, nada além de alimento à espera das feras para ser estraçalhado.
A ONG Brasil Sem Grades, liderada por Luiz Fernando Oderich e pela deputada Keiko Ota (PSB-SP), arregaçou as mangas. O site “Pelo fim da Impunidade” (www.pelofimdaimpunidade.com.br) merece ser visitado. Lá está o manifesto que precisa de 100 mil assinaturas. Estou nessa. Entre também. Assine. Movimente, pressione, mostre que não dá mais.
Vivemos uma guerra e estes agressores, como o que a PC gaúcha prendeu, precisam ser retirados do circuito. São criminosos de guerra. Têm prazer em matar e agredir. Não conseguiremos falar de paz com estes bandidos sádicos à solta.

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Capitão Oscar Bessi Filho

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A Liberdade em chamas

Publicado no jcb 220, Dezembro de 2013.

A democracia não está em cheque. Nunca estará. A democracia é fundamental, é um requisito para o exercício da racionalidade. Ela é, e sempre será, a chave primeira para a liberdade humana. Ela terá relação direta com a consciência, com o respeito ao outro e com a essência de nossa humanidade. A democracia não se ameaça com gestos de violência individual ou coletiva. Seja esta violência um preconceito, uma licitação fraudulenta, um hospital público que nega qualquer atendimento ou o tiro de um assaltante. A democracia é uma instituição invisível e ideal. Não é mutável, nem negociável. Ela é. Ou não é. E só pode ser plena, que democracia pela metade não é democracia, é engodo. É golpe.
O que está posto à prova é o quanto sabemos sobre o que ela realmente significa. Afinal, o que é democracia? Como se faz democracia? Como a percebemos garantida? Ela pode se resumir à simples troca da turma que está no poder? Ela se sustenta ou se pleiteia com mortes, como no Egito? E a liberdade? Onde anda a liberdade, a verdadeira liberdade, aquela que não pisoteia vidas a guisa de se garantir por aí?
Pois esta liberdade está em chamas. E são as chamas de um atentado, de um terrorismo intenso e implacável, de uma condenação sem qualquer chance de defesa. A liberdade, a verdadeira, corre perigo de desaparecer por completo. Se é que algum dia apareceu. Ela está em chamas nas chamas da escola em Eldorado do Sul. Está em chamas nas chamas e no sangue a dar pinturas tétricas às ruas do Cairo. A liberdade desaparece no desaparecimento de Amarildo. No desaparecimento da dignidade de professores e policiais. No desaparecimento das verdades. No estímulo ao álcool, ao jeitinho, à música da mulher-coisa, à impunidade, ao dar de ombros. A liberdade queima na nossa ignorância confortável. A liberdade desaparece na nossa incapacidade de fazê-la aparecer.

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Capitão Oscar Bessi Filho

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Os baita e a espionagem do Obama

Publicado no jcb 219, Outubro de 2013.

Esse negócio de internet e telefone grampeado para tudo que é lado gerou rebuliço na ainda não fundada República de Vapor da Macega. O governo central, em Vapor Velho, temporariamente instalado no Galpão do Chiru Cornélio, reunido para um salchipão com canha, reuniu os generais de seita Baita – principal sustentáculo enquanto grupo político, religioso e de carteado do governo provisório. Cada um trepado em seu CC. Cepo de Confiança. Tadeu, o homem da cuia grande, encheu um mate e fez a pergunta que todos aguardavam:
– Mas tchê! Nem uma costelinha, neste espeto?
Chiru torceu o bigode. Não gostava de visita reclamando do que ele oferecia. E eram tempos de economia, explicou. Precisava pagar a conta do celular e internet no galpão. Que mal pegavam, mas cobravam muito do bem.
– Pôs! E o Obama? Chom, chomp! – indagou Adauras, boca cheia de salsichão, aproveitando o assunto – Será que anda nos espionando também?
Debateram. Por que Obama os espionaria? Estaria de olho nos aipins do Seu Luiz? Nas motocas da Trilha do Toco? Ou desejaria tornar o Sítio Steffen Área Internacional de Segurança?
– Internacional, duvido. Área Grêmio até acredito. – resmungou Golias, da bombacha miúda e alpargata de couro, numa saudade danada dos tempos de avalanche no Olímpico. “Aquele calor humano, aquela euforia empurrando a gente assim, por trás”, suspirava, gremisticamente.
Chiru palestrou sobre a necessidade de ficarem atentos. Vapor Velho e Macega, segundo estudos perdidos perto de um barril de chope, seriam em breve as maiores potências mundiais. Os únicos lugares livres da intervenção dos exploradores do capital internacional. Ou o último lugar do mundo onde eles tentariam ganhar alguma coisa, vá saber. “Então, se alguém perceber um grampo, me avise!”.
Adauras, o Taura, se remexeu no cepo, desconfortável. E mui envergonhadamente levou a mão ao cabelo. Catou algo, estendeu a mão e mostrou a Cornélio, o generalíssimo do Vapor. Um grampo. “É de mamãe”, explicou. Tinha o encontrado caído no pátio, sendo raptado por uma saúva legalista e metrossexual. Na dúvida, guardou no cabelo. Não que usasse, claro. Conhecia o estatuto Baita. Nada de grampo. Ou de brinco. Ou de pulseirinha da Beyoncé. Em lugar nenhum, ainda que oculto.
Tensão e silêncio no galpão. Tadeu passou seu cuião adiante. E ninguém quis comentar o assunto.

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Capitão Oscar Bessi Filho

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Desse nosso patriotismo

Publicado no jcb 218, Setembro de 2013

Na Semana da Pátria, nossas bandeiras quase não apareceram.
O pavilhão nacional não veio às ruas. Nem às casas.
Nem a muitos prédios públicos. Elas, as bandeiras verd’amarelo,branco e azul anil, só aparecerão, ainda que transformadas em souvenires e distorções, no Estádio Mané Garrincha. Porque tem jogo da seleção. E olhe lá, sumirão logo após o apito final. Que o nosso patriotismo é assim. Rapidinho, pois temos mais o que fazer.
Na Semana da Pátria, pouco se ouviu o nosso hino. Mas se ouviu até enjoar Beyoncé. Lady Gaga. Coldplay e Linkin Park. Os mais velhos seguiram ouvindo Beatles e Madonna. Depende da geração. Ou do estado de ânimo. Nossas camisetas seguiram,na Semana da Pátria, com suas estampas no idioma patrão. O
inglês. Que o inglês é o patrão da moda e dos bons costumes. Um mau costume. Está em 90% do que está escrito nas roupas que usamos, nas comidas que comemos, nas bebidas que tomamos,nas gírias que papagaiamos. E nem sei por que ainda dizemos,por aí, que falamos português.
A lista dos dez livros mais vendidos no Brasil, na Semana da Pátria, continua com nove livros estrangeiros. E o único escritor brasileiro nem é escritor. A lista dos filmes mais assistidos continua empurrando o cinema nacional à série B. Na semana a Pátria brasileira, aliás, a grande estreia aguardada nos maiores cinemas é um filme sobre um ataque estrangeiro ao centro do governo americano. Vamos nos empolgar e emocionar com o nacionalismo deles. Não com o nosso. Torcer por eles. Não por nós. Mas, repito,tem jogo da seleção no sábado. Dá pra ser patriota por uma hora e meia. Se o Neymar fizer gol e a torcida não perder a paciência.
No nosso Dia da Independência, olhamos no retrovisor da própria história e percebemos que nosso país deixou de ser livre há muito tempo. Foi quando um certo Cabral desviou a rota e desembarcou nestas terras com sua trupe e picaretas. A partir daí, o colonialismo virou nosso modo de viver. É normal trabalhar com o único objetivo de enriquecer nobrezas prepotentes e despudoradas. É normal matar nossa identidade. Alugar a nossa alma. Atropelar nossos costumes em nome do consumismo. Ser sugado, cotidianamente, num festival de achaques e atravessar os séculos sem qualquer força para transformar isto. Na Semana da Pátria, o7 de setembro é só o dia em que torcemos para que chova. E, aí, não tenha desfile.

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