Retratos

Precisava tomar uma atitude. O que a outra tinha de tão especial? O cabelo? Pode ser, tem homem que é obcecado por loira. E os dela eram curtos, o contrário dos seus. O corpo? Dificilmente, eram quase que da mesma altura e peso. Talvez fosse fumante. É isso, o Cláudio fumava. Desde adolescente. Tiveram algumas brigas por causa das bitucas jogadas no pátio, ou pela fumaça fedendo na casa inteira. Nunca fumara na vida, mas podia começar, que é que tem. O Ministério da Saúde não advertia sobre o seu casamento estar por um fio.
Apanhou a bolsa, decidiu comprar um maço de cigarros. Queria ver a cara dele, quando chegasse.
Descobrira por acaso que por marido tinha uma amante, outra vez. Odiava ir ao shopping, mas precisou comprar o creme contra a alergia do filho logo numa farmácia que só tinha lá. Ao cruzar a praça de alimentação viu aquela cena, Cláudio com a outra, agarrado, trocando beijinhos. Após o susto e a vertigem, ficou espiando os dois, de longe. Compraram sorvetes. Saíram dali direto ao cinema. Quase desmaiou. Ele não a levava ao cinema há mais de cinco anos.
Eram colegas de escritório, descobriu, no dia seguinte. Pouco mais jovem que ela, frequentava uma academia da zona sul – será que era o Cláudio quem pagava? – e gostava de usar saias curtas e blusas decotadas. Indignada, foi até uma loja de roupas jovens e fez um rancho. Olhou-se no espelho. Nunca vestira algo que deixasse as pernas tão à mostra. Fez pose, como se estivesse no sofá quando o Cláudio abrisse a porta, à noite. Acompanhou o desenho da própria coxa, era importante aparecer a calcinha. E se depilar.
Com o cigarro aceso entre os dedos, então, perfeito.
Levou a mão à testa, quase ia esquecendo. Apanhou um caderno velho, folheou as páginas, nervosa, onde tinha anotado aquele maldito telefone?
“Mirela? Ainda tem horário pra hoje? Quero cortar tudo. Não, menina. Não enlouqueci. Depois te explico.”
Agendou a cabeleireira. Às quatro. Dava tempo. Queria ver a cara do Cláudio, quando chegasse. Queria vê-lo resistir, queria ver ele não desejá-la.
Ligou outra vez.
“Só mais um detalhe, Mirela. Tem tinta loira?

24 - Cap Bessi

Capitão Oscar Bessi
www.oscarbessi.com.br

Colunista do ABC da Segurança Pública

fotocapa

Oscar Bessi Filho é gaúcho de Porto Alegre, mas reside em Montenegro/RS. Capitão da Brigada Militar e escritor, escreve crônicas diárias para o Jornal Ibiá, no Vale do Caí, colabora semanalmente com a Folha de São Borja e é colunista dominical na página de polícia do Correio do Povo e colunista do ABC da Segurança Pública.

Confira mais sobre o colunista Oscar Bessi Filho no seu site: http://www.oscarbessi.com.br