Não somos vadios – Carta aberta ao deputado Boessio

Publicado no jcb 235, Outubro de 2015.

“O homem arruína mais as coisas com as palavras do que com o silêncio.” (Gandhi)

Vou me permitir a dispensa desses pronomes de tratamento pomposos, comuns quando nós, do povão, precisamos nos dirigir aos nossos empregados mais “elevados” (afinal, nós que os pagamos para que trabalhem para nós, não?). Até porque o senhor me ofendeu, o que automaticamente implica numa dispensa de respeito da minha parte. Que não se preocupe, não usarei. Não costumo ofender pessoas que nem conheço. E eu não o conheço.
Antes, vou explicar: sou escritor. Não vadio. Mas escritor não é profissão no Brasil, então na verdade sou Policial Militar, o único que, como escritor, tem a honra de escrever para um grande jornal em nosso país. Sou mais um soldado do povo. Não sou dado à vadiagem.
Tudo o que já escrevi na minha vida, todos os livros que publiquei, artigos, crônicas, poemas e prêmios literários que recebi, foram produtos de minhas horas de folga. Pois nem nestes momentos costumo vadiar: escrevo, leio, cuido dos meus filhos, cuidei muito tempo dos meus pais doentes, faço palestras para estudantes – caso se interesse pelo conteúdo, visite meu site (www.oscarbessi.com.br)-, associações comunitárias, igrejas, empresas ou quem mais estiver a fim de saber sobre cidadania e instrumentos de humanização para que possamos diminuir a violência cotidiana. Uma intersecção que me motiva. Enfim: o que escrevo aqui no Correio do Povo, embora eu não saiba se o tens o hábito de ler.
Hoje estou doente. Preferia, de coração, não estar, mas pago o preço de trabalhos quadriplicados e alguns senões de sobrecargas particulares. Acumulei todas as funções administrativas e operacionais de um batalhão e o autorizo a ver meu histórico policial, (sério, não me importo). Se não cansar de ler, saiba que ali verá menos de 5% de minha atuação nas ruas, ao lado dos meus soldados, algo que sempre priorizei (penso que nosso povo paga impostos para isto), mesmo sabendo que minhas atribuições burocráticas eram consideradas mais importantes. Certo, ninguém me mandou escolher esta profissão. Tampouco tolerar, passivo e obediente, o resultado histórico da falta de estrutura das corporações de segurança pública, assim como se costuma fazer na saúde, educação e outras áreas. Competência que não falta ao se dar ágil guarida a inúteis – e me questionei isto, com todo respeito, ao ler sobre a quantidade de assessores demitidos após uma crise pessoal do Deputado Jardel. Que utilidade teria tanta gente, com tão belo salário, num único gabinete? Cabem naquele espaço? Sim, estou doente e é de uma forma séria. Como outros servidores, arco com os custos dos meus remédios e tratamento, já que os médicos correm do IPE e, desamparados, temos que correr para qualquer lado. Após 25 anos e 7 meses na ativa, não pensei que passaria por uma situação assim e não aprecio vivê-la. Rogo estar bom logo, pois tenho saudade das ruas, dos meus colegas de farda, das escolas, das comunidades.
A sorte que sigo atuando em eventos como escritor, onde a arma e o conflito não estão presentes e, assim, não coloco em risco quem jurei defender. E a literatura, além de evitar um crescimento da minha doença, serve como terapia. Sim, escrevo por instinto de cidadania, mas também para me curar. E não me sinto vadio.
Perdoe por explicações pessoais. Como é carta aberta, preciso me deixar transparente. E fiquei ofendido com a afirmação sobre os vadios, pois me ela inclui de forma direta. Servi na zona norte de Porto Alegre, em Alvorada, em Canoas, além de cidades do interior. Lugares onde coisas nada fáceis foram vividas – mas que são do cotidiano policial, eu sei, como ser quase morto com um tiro no rosto, ou ver um colega morrer ao teu lado em confronto. Normal. Mas vivi momentos ímpares de felicidade em meu ofício. Quando resolvi dedicar quatro anos de minha juventude para obter meu diploma, tendo apenas alguns finais de semana para ir para casa, ou quando cheguei a trabalhar 36h ininterruptas numa viatura do 11º BPM, na capital, ou quando passei com minha equipe por cinco noites a fio enfiado no mato, em cerco de assalto a banco, não me senti vadio. Estou chateado por ser chamado assim.
Tenho colegas de farda fantásticos. Conheci professores maravilhosos. Gente que, mesmo tratados com desrespeito e descaso, seguem na luta de uma causa. Querem um mundo melhor. E não apenas para os seus filhos, mas para os filhos de todos. Essa gente batalhadora que, como eu, já frequentou tantas vezes as listas negras dos que devem na praça, essa gente que se obriga a jornadas alucinadas e triplicadas de trabalho para garantir um mínimo de sustento e uma vida decente aos seus. Essa gente, deputado, não é vadia. Um professor de 60h, que trabalha manhã, tarde e noite, que fora destes horários ainda precisar ler, planejar aulas, estudar, corrigir provas e trabalhos, não é vadio. Um soldado que leva um tiro e fica paraplégico, ao enfrentar assaltantes, não é vadio. Mas os chamaste assim.
Muitos desses servidores ainda dedicam suas horas de folga para realizar trabalhos voluntários em suas comunidades. Para mudar a vida das pessoas que o estado esqueceu. Sei disto, pois me orgulho de também participar, deputado, em algumas frentes, e tenho muitos parceiros nesta luta. Nenhum vadio.
Não somos vadios quando ficamos doentes de não suportar mais, por tantos anos sem trégua, a sobrecarga de trabalho para tentar corrigir as falhas de um estado mal administrado. Sim, mal administrado. E não posso usar outro argumento se temos Superporto, temos Pólo Petroquímico, temos REFAP, temos grandes indústrias, temos invejosa produção agro-pecuária e por aí vai. Aí vejo o Acre. O que tem o Acre? Por que o pobre Acre, que não tem nada disso, está melhor do que nós?
Só sei que não é por causa destes que o deputado chama de vadios. Ganhamos muito pouco para quebrar um estado tão potente. Não somos perfeitos, todo grupo humano tem seus bons e maus integrantes. Mas a explicação desta quebradeira, se é que há quebradeira, está em outras mãos, literalmente.
Não fomos nós, servidores comuns do estado, nestas lidas básicas de atender o povo nos campos e cidades deste pampa, que fizemos farras com combustíveis, diárias e por aí vai. Nem nos concedemos gordos aumentos (como aconteceu já duas vezes, em poucos anos, com os deputados estaduais), embora até precisássemos, e muito. Nós pegamos um ou mais ônibus lotados ainda na madrugada, ou pagamos combustível do nosso bolso, para ir ao trabalho. Não temos carro, gasolina e motoristas custeados pelos impostos dos cidadãos. Somos apenas cidadãos comuns, deputado.
Não somos vadios.
Espero, sinceramente, que peça desculpas aos policiais que arriscam sua vida todos os dias e noites, aos professores que são a única porta de esperança de tantos excluídos pelo próprio estado, a todos os servidores que se entregam para atender o povo gaúcho e, que por tanta dedicação sem ao menos uma nesga de respeito como recompensa, adoecem, ou têm a necessidade de parar um pouco para não morrer. Os que, hoje, precisam levar até papel higiênico ao seu local de trabalho para que um mínimo de decência sobreviva.
Minha manifestação não traz raiva. É apenas um lamento que brota desse resquício de dignidade que insistimos em carregar conosco. E sua declaração praticamente anula o efeito do todos os remédios que tomo.
Torcerei para que se desculpe. Nem com palavras, com ações. Preferimos. Um olhar mais atento e humano respeitaria quem não merece ser chamado assim.
Não somos vadios, deputado.
Nunca seremos.

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Capitão Oscar Bessi
www.oscarbessi.com.br