Palavrão

Publicado no jcb 234, Agosto de 2015.

Não sou um sujeito habituado aos palavrões. Mas, vez em quando, eles escapam. Dia desses, por exemplo, eu cozinhava, fui fritar um ovo e me queimei. Barbeiragem masculina. O grito furioso veio meio milésimo de segundos depois. Outro dia, o culpado foi o Nilmar. Perdeu um gol imperdível e, quando vi que a bola não entrou, o palavrão saiu, junto com o pulo que dei no sofá e o soco no ar. Não posso assistir futebol ou ficar brabo, que aí o lado italiano de pai fala mais alto. E bem alto. Tenho esse defeito e é bem chato, reconheço. Acho que foi um dos motivos para o psiquiatra dobrar meus remédios: se a tristeza é nociva, certos gritos também são. No mais, sou calmo. E falo pouco, exceto quando me empolgo num debate. Ou quando converso com estudantes sobre literatura. Aí, fico tagarela. Mas não digo palavrões.
E os palavrões existem em todas as línguas da humanidade. Conheço os nossos, óbvio, e alguns em inglês – resquícios de certos filmes proibidos que vi na adolescência -, poucos em espanhol e só os mais corriqueiros em italiano. Alguns em alemão já me ensinaram. Um palavrão em japonês, ou em árabe, só entendo pela careta. Coisa incrível é que todos eles remetem às mesmas imagens: sexo, órgãos sexuais, necessidades fisiológicas. Tento entender o sentido disto. O que me fez, ao queimar o dedo, gritar o nome mais vulgar da genitália masculina, assim, sem pensar? Qual a relação? Não, nada a ver com alho ou com o ovo, pois já gritei o mesmo ao dar uma topada e bater com a cabeça na porta do carro. Qual o sentido de relacionar uma profissional do sexo com cocô e gritar “puta merda!” só porque o Nilmar deu um bicudo bisonho na cara do gol? Outro dia, no terminal bancário de autoatendimento, um sujeito ao meu lado resmungou o nome alternativo da vagina ao ver seu extrato de conta. E não era cara de prazer, a que ele fez. Vá entender.

Aliás, nos momentos íntimos, de prazer intenso, “as palavras sujas” (como dizem os poetas) percorrem as bocas mais recatadas com desenvoltura, desejo e leveza. No trânsito também aparecem fácil, feito buzinas, e até o saudoso Scliar pediu desculpas públicas numa crônica por ter xingado – e decepcionado – uma senhora, sua leitora. O palavrão é uma ciência, dizem que mexe com algo que está no porão do nosso cérebro. É uma libertação, um escape nos instantes de sensações máximas, seja tensão, dor ou prazer. Aham. Por isso desconfio dos norte-americanos. Bah, que povo é esse que grita “Deus!” quando tem um orgasmo?

BESSI

Capitão Oscar Bessi
www.oscarbessi.com.br
Outros textos do autor em: http://www.abcdaseguranca.org.br/?cat=131