O Merdólogo

Publicado no jcb 233, Junho de 2015.

Tenho um romance arquivado há muito tempo, que nunca publiquei. É a história de um bando que vai a uma pequena cidade da fronteira assaltar uma igreja, ao descobrir que o padre guarda, nalgum lugar do templo, tesouros valiosos num baú. Acontece que o tal tesouro não é bem o que eles pensam. Mas não vou contar a história. Vai que um dia publico.
Neste livro, que nunca foi livro, há um personagem que considero um dos mais interessantes que já criei. Trata-se de um velho cientista – é o que ele diz ser, um merdólogo – empenhado em comprovar a igualdade da essência humana. É um bom sujeito, idealista. Mas meio doido. Que todo sujeito bom, e convicto da igualdade, é um louco que anda na contramão dessa humanidade gananciosa e egocêntrica. E ele usa, como instrumento da prova máxima de que todos na essência são iguais, a análise dos excrementos humanos. Por isso sai pela cidade colhendo fezes, catalogando, armazenando e analisando em seu laboratório – um lugar muito malcheiroso, diga-se de passagem. O resultado é conclusivo.
Na sua pesquisa, ele passa por dificuldades. Quer provar que, num resultado final que não a óbvia morte, todos são iguais. Absolutamente iguais. E é no cocô que todos se equiparam: o doutor e o analfabeto, os belos e os feios, homos ou héteros, donos do mundo e descamisados. Todos se tornam a mesma porcaria. Teve gente que não quis colaborar com sua pesquisa – como uma modelo, que alegou não fazer estas coisas nojentas – e ele se obrigou a operações complexas para furto de necessidades fisiológicas alheias. Acabou preso. E solto em seguida, algo incomum para os loucos, mas sempre possível para os ladrões.
Na cadeia, ele conhece outro tipo de sujeira: a subjetiva. Aquelas que os humanos fazem sem que seja necessário sentar-se ao vaso. E esta sim, é complexa e múltipla. Isto muda seu estudo e amplia o leque de possibilidades. Avaliar a escumalha concreta que cada um faz é fácil (pelo menos para ele, eu já não teria estômago). A outra que é dose: as “cacacas” que se faz em nome do amor, ou do partido, ou do rancor, ou do ego. E lembrei-me do meu bom louco merdólogo ao ler sobre a prisão dos figurões da FIFA, umas votações no Congresso e outros poraís. Eis porque meu personagem empacou na pesquisa e eu empaquei no romance. É imundície demais, não dá pra catalogar tudo. Mas ainda concordo com ele: também é impossível hierarquizar. No fim das contas, tudo apenas fede. É da humanidade.

24 - Bessi no trabalho (Small)

Capitão Oscar Bessi
www.oscarbessi.com.br
Outros textos do autor em: http://www.abcdaseguranca.org.br/?cat=131