Manifestação

Publicado no jcb 231, Março de 2015.

Com tanta gente na rua, alguns bichos domésticos decidiram se manifestar também. Só alguns. Afinal, são águas de março fechando o verão. É miau, é pau, é pedra. E pode ser o fim do caminho. Ou não. O Sinditotó, grupo de oposição que sempre rosna contra qualquer movimento – social ou de carteiros no portão – foi o primeiro a ganhar as ruas.

– Impeachment desses donos! Já!

– Hum. Mas é quem te dá uma boquinha. Aquela ração básica de todo dia. Vai morder o quê, daí?

– Ih. Esse aí é da turma do Petrocão. Ou da Lava-gatos.
O Cut-Cut-Fófis, que reúne gatinhos de madame, modelos para adesivos e etc., não gostou da provocação.

– Nós também estamos na luta!

– Pelo quê?

– Ah. Sei lá. Mais colo, mais cafuné. Mais banho com xampu no pet shop e lantejoulas nos lacinhos. Essas coisas básicas. E pelo direito de não sermos atacados por vira-latas nas ruas, que, benzadeus, este país tá fora de controle.

Poodles brancos, e paulistas, concordaram. Pediram pena de morte e Serra na presidência. Um grupo de pardais de extrema esquerda passou voando baixo e veloz. “Vão atacar o palácio do governo?”, perguntou um cãomunista autêntico, das antigas, sorrindo com seus velhos caninos quebrados pelo DOPS. “Não, eles só viram uns farelos na calçada”, respondeu com desprezo o Yorkshire ao lado, integrante dos new communist – a nova versão marxista, devidamente domesticada pelo capitalismo ex-selvagem, muito mais fashion com aquelas coleiras em tons lilás, no lugar dos vermelhos mofados da foice e martelo.

Um bloco de baratas tontas gritou “tamo junto!” e quis saber para que lado ir, a fim de engrossar a massa. Moscas anunciaram, só entrariam no final, depois da polícia e da… Coisa feita. Ratos se articularam para saquear as lojas. Até que passou um coelhinho, na dele, ligeiro e concentrado como quem só cuida do seu nariz, já inquieto o suficiente por natureza. Mas a galera não perdoou e passou a gritar, em coro: “Cu-e-li-nhu! Se eu fosse como tu! Tirava a mão do bolso e enfiava… ”.

Horrorizado, ele foi detido e interpelado pelos líderes do protesto.

– Bah, gurizada. Consegui emprego num super. – explicou – Vou me vestir de Bugs Bunny pra anunciar chocolate. Pô, preciso dessa grana! Moro numa gaiola. Como grama e o pão que o dono amassou!

Não deu tempo pra mais nada. Chegou a tropa de choque. Os capas pretas. Gatos correram, os ratos correram dos gatos, as moscas e baratas fizeram selfies. Só os cães revoltados ficaram. E latiram. Latiram muito. Até ganharem um osso pra cada um e decidirem que, enfim, o melhor mesmo ainda é não morder.

24 - Bessi no trabalho (Small)

 

 

 

 

 

 

Capitão Oscar Bessi
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