A escravidão e o professor de 60 horas

Publicado no jcb 229, Dezembro de 2014.

Conheci uma professora de sessenta horas, dia desses, que resolveu me contar qual era o seu salário. Ela é professora pública. Ela tem curso superior e uma pós-graduação. Gastou o que não podia para se formar. Conseguiu. Hoje, para uma quase decência, é obrigada a dar aulas no regime de sessenta horas, é o jeito que encontra de ganhar um pouco mais.
Sabem o que é isto? Sessenta horas é aquela jornada onde o professor dá aulas em três turnos: manhã, tarde e noite. E estamos falando de manhã inteira, tarde inteira e noite inteira. Todos os dias da semana. Sujeito a atividades aos sábados. Pois sabem quanto ela me disse que ganha, por mês? No total? Inacreditáveis 1,7 mil reais. Mil e setecentos. Para não ter uma hora de folga em nenhum dia da semana, já que tem os deslocamentos entre uma escola e outra, uma em cada turno. Almoça correndo. Faz lanche, não janta. Mal vê a família durante a semana toda. Que tempo sobra para estudar e preparar aulas? Que tempo sobra para viver?
Mil e setecentos deve ser o salário do mais furreca Cargo de Confiança na mais longínqua e paupérrima cidade do país. Estes outros aí, que se penduram em governos municipais, estaduais e federais, na maioria do tempo passeando e fazendo campanha para seus benfeitores, ganham muito mais que um professor. Um deputado traficante, como este do helicóptero pego cheio de cocaína, dá esses 1,7 mil de gorjeta ao motorista que o levou para negociar propinas. Um atacante do Grêmio e do Inter não treina se receber isto por hora. Um chupim de partido recebe isto para faz Um chupim de partido recebe isto para faz farra assim, ao natural.
Que desaforo! Que barbaridade! Que crime! Isto é escravidão, e logo na única área que pode salvar o futuro deste país: a educação. Mesmo assim, a gente encontra professores empolgados, vibrantes, apaixonados. Guerreiros. Quem quer ser professor, deste jeito? Só os apaixonados. Que estímulo se dá aos jovens? Claro que vão preferir virar traficante, assaltante e outros bandidos de nomenclatura mais respeitável. É ruim de pensar nisto, pois dá vontade de pegar o mango do meu amigo Simão e sair caçando esses gestores políticos brasileiros. Chê, eu fico doido com isto. Não vale sete reais para os governos a hora-aula de um professor público. Uma cerveja num bar vale mais que uma aula de cidadania.

Eis o Brasil.
O país da copa e da latrina.

 

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Capitão Oscar Bessi
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