Bola de meia, bola de gude, bola de neve

Publicado no jcb 228, Outubro de 2014.

Fernando Brant é meu colega de editora em Minas Gerais. Já tivemos lançamentos juntos nas tradicionais Passarelas Literárias, de BH. Cronista idolatrado na capital mineira e de composições definitivas para a música popular brasileira, seu segredo é tocar a alma. Como ao lembrar de que existe amizade, palavra, respeito, caráter, bondade, alegria e amor, como diz a música “Bola de meia, bola de gude”. Por isso, digo que ele e Milton Nascimento encontraram a saída para nos salvarmos desta violência insana nos estádios de futebol. Talvez a única maneira para que esta guerra burra e covarde, como na batalha vista no dia 08/12/13 em Joinville, cesse de uma vez por todas e pare de ser a fotografia do nosso futebol. É simples. eles mataram a charada: tirem os adultos de cena.

Adultos não sabem brincar. Não sabem se divertir, confraternizar, conviver. Então que tudo se torne bola de meia, bola de gude e nada além. Deixem o futebol para as crianças. Melhor: deixem o mundo para as crianças. Meninos não teriam brigado nas arquibancadas. Meninos teriam brincado. Meninos poderiam ficar misturados, mesmo sendo de vários times diferentes, que tudo seria folguedo. E se corressem pelo estádio, estariam apenas brincando de pega-pega. Pois os nossos meninos só conseguem ser maus depois de ensinados a serem assim. Pelos pais ou pela vida. Infelizmente já vi, em escolinhas de futebol, pais na torcida incentivando a violência, a jogada maldosa, até humilhando adversários com palavras sujas. Bah, e os adversários também eram crianças! Iguais aos filhos deles! Não, não me venham com a máxima de que isto “faz parte do futebol”. Agressão não é coisa do futebol. Violência, ofensa, covardia não é coisa de futebol. De esporte nenhum. Não era para ser, pelo menos.

Não adiantará de nada discutir se a polícia pública deve ou não estar num evento privado. Não adiantará buscar responsabilidades em todos os níveis se estes mesmos níveis, em nome dos seus lucros, não mudarem culturas. Não adiantará frear torcidas organizadas se outras feras se organizarão. Muito menos mudar locais sem mudar pessoas. Não adiantará falar em esporte se as provocações, em nome dele, serão bestiais e humilhantes. Talvez a bola de couro esteja murchando e as bolas de pano, ou as bolas de gude, tenham mais graça, como diz a música de Fernando e Milton. Os adultos são bons de negociatas. Bons de lucros. Suas jogadas são outras, onde valem rasteiras. Mas eles, adultos, não sabem acreditar que coisas bonitas não deixarão de existir. E aí a violência é uma bola de neve.

 

24 - Bessi no trabalho

 

 

 

 

 

 

Capitão Oscar Bessi
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