A nova ordem

Publicado no jcb 225, Jun/Julho de 2014.

O rato pulou a máquina de lavar, rolou pelo azulejo, rastejou sob o fogão e, zás!, voou num salto mortal sobre a mesa. Agarrou o queijo e se mandou. Esperou o tradicional derrubar de vasos, vidro quebrando, porta caindo e gritos de “pega!, pega!”. Nada. Silêncio. Desconfiado, espiou pela fresta e viu Miminho, o gato xerife da casa, no sofá. Nem aí. Sem abalar o seu sono em berço esplêndido. Opa, tem algo errado, pensou, e decidiu tirar satisfação. Feriado felino, por acaso? O queijo estava envenenado? Qual a lógica?
– Lógica da impunidade – resmungomiou o gato, com desdém. Fica fréu, tu tá liberado.
– Liberado? – Roube o queijo que quiser e quando quiser, não dá nada. Os donos que se danem. É a Nova Ordem. Da desordem.
O rato ia argumentar, por que não avisaram antes? Tinha perdido um tempão brigando na escola, ameaçando professor e repetindo de ano (não pegou essa de passar goela abaixo). Soubesse, tinha entrado no crime mais cedo. E sem dividir o butim. Ia reclamar, mas foi interrompido por um grupo de mosquitos da dengue que chegaram zunindo, furiosos.
– Ei, gato! Essa zoeira não tá legal!
– Não tá? Ainda – miou outra vez Miminho, cabisbaixo, observando os insetos do alto dos seus mais de vinte anos de Polícia. Mas já vai estar. Os juristas do Senado estão providenciando. Droga liberada de vez, tráfico sem dar flagrante, e por aí vai.
– Quê? Ah, tá! Nós investimos em armas, gastamos horrores corrompendo meio mundo e ainda picamos mentes sem cessar, só pra manter em alta a febre do consumismo. Tudo redondinho para ganhar um dinheiro fácil honestamente. Pô! Agora, até as moscas vão entrar no nosso negócio. Vão vender crack no sinal em vez de rapadura? Como ficam as nossas aplicações no Fundo Bandalheira? Que injustiça!
– Não é injustiça. É Justiça brasileira, conceito um pouco diferente. O crime sai da lei, melhora a estatística e deu. É o novo combate, que desiste da luta e se entrega de vez – miou Miminho, magoado. E dormiu. Que ele, o gato xerife, não tinha mais o que fazer por ali, com a Nova Ordem.
Os mosquitos da dengue voaram, debatendo-se. Agora, para negociar certos contágios, teriam que pagar licença, imposto, alvará, etc. Seria mais barato que corromper? Melhor botar na ponta do ferrão, quer dizer, do lápis. O rato levou o queijo, mas ficou se perguntando como ficaria aquela cantiga de roda, “Estava o rato no seu lugar, veio o gato lhe fazer mal”. Quem faria mal pra quem, na Nova Ordem? E se assaltassem a pobre da velha a fiar? Polícia na velha? Que confusão! Tinha pena da criançada de hoje, estava perdendo a graça.
Deu de ombros e foi comer o seu queijo, legitimamente roubado, no sol. Sem medo de ser feliz e debochado. Era a Nova Ordem, ué. Quem iria se meter?

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Capitão Oscar Bessi
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