Mobilização pelo Trânsito

Publicado no jcb 224, Maio 2014.

O vice-governador do Rio Grande do Sul, Beto Grill, é médico. E a grande maioria dos médicos tem esse jeito preocupado de olhar a humanidade. Salvar vidas é o que os fascina. A gente vê a sinceridade disto ao conversar com eles. Pelo brilho no olhar e uma bela carga de sentimento que não se disfarça. Os bons médicos têm disto. Sentimento. Lembro do saudoso Scliar, em encontros literários na capital. Por mais que a fama, a mídia e o reconhecimento o tivessem colocado num patamar muito acima de nós, escritores comuns a degustar sua presença, ele não perdia aquele jeito de olhar. Cheio de calma e ternura. Ternura de médico. Quando encontro Beto Grill, e nele reconheço este olhar humano, lembro do Scliar. E lembro do Dr. Marcos Müller, da minha cidade, que já perdi a conta de quantas vezes largou o que fazia para salvar a vida do meu pai e da minha mãe.

O trabalho desenvolvido pelo Comitê Estadual de Mobilização pela Segurança no Trânsito, do Gabinete do vice-governador, requer a paciência e a dedicação dos mais complexos tratamentos médicos. O trânsito é um corpo doente, onde muitos órgãos parecem degenerados. As mortes se repetem a todo instante e não há diagnósticos favoráveis. Dramas diários de violência desesperam famílias. Abusos se repetem e se multiplicam.

As condutas no trânsito infelizmente estão permeadas por uma educação umbilical, egocêntrica e exibicionista, despida de humanidade e do simples pensar no próximo. Pressa e prepotência empurram e atropelam as almas. A saturação, a tensão e a asfixia, provocadas pelo desproporcional crescimento do número de veículos automotores que invadem nossas ruas, mostram a pior das faces do capitalismo desmedido: quando só o lucro e a produção importam, só as vendas contam, nada além das cifras monumentais e nenhum espaço, mas nenhum mesmo, para limites éticos ou suportáveis de um contexto sadio. As obras públicas vêm secularmente vistas como normais na mesma proporção em que se tornam a cada dia mais excludentes ou superfaturadas, jogando ao salve-se como puder os demais personagens do contexto, como pedestres e ciclistas, idosos, crianças e cadeirantes. Há lugares por aí onde se promete irresponsavelmente asfalto como mero inimigo do pó, quando, se mal feito, ele vira inimigo é da vida.

Estive no encontro regional realizado no Vale do Caí. Com a parceria da Brigada Militar, policiais rodoviárias, prefeituras e Guardas Municipais de Trânsito, o Comitê conseguiu resultados favoráveis. Mas é um tratamento longo. O médico está disposto, sua equipe mais ainda. Só precisam de uma mudança de comportamento do paciente. Consciência. Pensa que a gente só consiga combater essa doença ao sentir a dor.

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Capitão Oscar Bessi
www.oscarbessi.com.br