Os baita e a espionagem do Obama

Publicado no jcb 219, Outubro de 2013.

Esse negócio de internet e telefone grampeado para tudo que é lado gerou rebuliço na ainda não fundada República de Vapor da Macega. O governo central, em Vapor Velho, temporariamente instalado no Galpão do Chiru Cornélio, reunido para um salchipão com canha, reuniu os generais de seita Baita – principal sustentáculo enquanto grupo político, religioso e de carteado do governo provisório. Cada um trepado em seu CC. Cepo de Confiança. Tadeu, o homem da cuia grande, encheu um mate e fez a pergunta que todos aguardavam:
– Mas tchê! Nem uma costelinha, neste espeto?
Chiru torceu o bigode. Não gostava de visita reclamando do que ele oferecia. E eram tempos de economia, explicou. Precisava pagar a conta do celular e internet no galpão. Que mal pegavam, mas cobravam muito do bem.
– Pôs! E o Obama? Chom, chomp! – indagou Adauras, boca cheia de salsichão, aproveitando o assunto – Será que anda nos espionando também?
Debateram. Por que Obama os espionaria? Estaria de olho nos aipins do Seu Luiz? Nas motocas da Trilha do Toco? Ou desejaria tornar o Sítio Steffen Área Internacional de Segurança?
– Internacional, duvido. Área Grêmio até acredito. – resmungou Golias, da bombacha miúda e alpargata de couro, numa saudade danada dos tempos de avalanche no Olímpico. “Aquele calor humano, aquela euforia empurrando a gente assim, por trás”, suspirava, gremisticamente.
Chiru palestrou sobre a necessidade de ficarem atentos. Vapor Velho e Macega, segundo estudos perdidos perto de um barril de chope, seriam em breve as maiores potências mundiais. Os únicos lugares livres da intervenção dos exploradores do capital internacional. Ou o último lugar do mundo onde eles tentariam ganhar alguma coisa, vá saber. “Então, se alguém perceber um grampo, me avise!”.
Adauras, o Taura, se remexeu no cepo, desconfortável. E mui envergonhadamente levou a mão ao cabelo. Catou algo, estendeu a mão e mostrou a Cornélio, o generalíssimo do Vapor. Um grampo. “É de mamãe”, explicou. Tinha o encontrado caído no pátio, sendo raptado por uma saúva legalista e metrossexual. Na dúvida, guardou no cabelo. Não que usasse, claro. Conhecia o estatuto Baita. Nada de grampo. Ou de brinco. Ou de pulseirinha da Beyoncé. Em lugar nenhum, ainda que oculto.
Tensão e silêncio no galpão. Tadeu passou seu cuião adiante. E ninguém quis comentar o assunto.

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Capitão Oscar Bessi Filho

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