Desse nosso patriotismo

Publicado no jcb 218, Setembro de 2013

Na Semana da Pátria, nossas bandeiras quase não apareceram.
O pavilhão nacional não veio às ruas. Nem às casas.
Nem a muitos prédios públicos. Elas, as bandeiras verd’amarelo,branco e azul anil, só aparecerão, ainda que transformadas em souvenires e distorções, no Estádio Mané Garrincha. Porque tem jogo da seleção. E olhe lá, sumirão logo após o apito final. Que o nosso patriotismo é assim. Rapidinho, pois temos mais o que fazer.
Na Semana da Pátria, pouco se ouviu o nosso hino. Mas se ouviu até enjoar Beyoncé. Lady Gaga. Coldplay e Linkin Park. Os mais velhos seguiram ouvindo Beatles e Madonna. Depende da geração. Ou do estado de ânimo. Nossas camisetas seguiram,na Semana da Pátria, com suas estampas no idioma patrão. O
inglês. Que o inglês é o patrão da moda e dos bons costumes. Um mau costume. Está em 90% do que está escrito nas roupas que usamos, nas comidas que comemos, nas bebidas que tomamos,nas gírias que papagaiamos. E nem sei por que ainda dizemos,por aí, que falamos português.
A lista dos dez livros mais vendidos no Brasil, na Semana da Pátria, continua com nove livros estrangeiros. E o único escritor brasileiro nem é escritor. A lista dos filmes mais assistidos continua empurrando o cinema nacional à série B. Na semana a Pátria brasileira, aliás, a grande estreia aguardada nos maiores cinemas é um filme sobre um ataque estrangeiro ao centro do governo americano. Vamos nos empolgar e emocionar com o nacionalismo deles. Não com o nosso. Torcer por eles. Não por nós. Mas, repito,tem jogo da seleção no sábado. Dá pra ser patriota por uma hora e meia. Se o Neymar fizer gol e a torcida não perder a paciência.
No nosso Dia da Independência, olhamos no retrovisor da própria história e percebemos que nosso país deixou de ser livre há muito tempo. Foi quando um certo Cabral desviou a rota e desembarcou nestas terras com sua trupe e picaretas. A partir daí, o colonialismo virou nosso modo de viver. É normal trabalhar com o único objetivo de enriquecer nobrezas prepotentes e despudoradas. É normal matar nossa identidade. Alugar a nossa alma. Atropelar nossos costumes em nome do consumismo. Ser sugado, cotidianamente, num festival de achaques e atravessar os séculos sem qualquer força para transformar isto. Na Semana da Pátria, o7 de setembro é só o dia em que torcemos para que chova. E, aí, não tenha desfile.

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Capitão Bessi

http://www.oscarbessi.com.br/

Colunista do ABC da Segurança Pública

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Oscar Bessi Filho é gaúcho de Porto Alegre, mas reside em Montenegro/RS. Capitão da Brigada Militar e escritor, escreve crônicas diárias para o Jornal Ibiá, no Vale do Caí, colabora semanalmente com a Folha de São Borja e é colunista dominical na página de polícia do Correio do Povo e colunista do ABC da Segurança Pública.

Confira mais sobre o colunista Oscar Bessi Filho no seu site: http://www.oscarbessi.com.br