Miminho e a PEC

Cap Oscar Bessi Filho

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Quando viu que o ser humano tinha este poder de cultivar cupins no próprio rosto, Miminho gelou. Olhou os mesmos políticos que ainda ontem queriam detonar com as investigações do Ministério Público, para não acabarem presos, agora vibrando daquele jeito, na maior cara-de-pau. Entre preso ou linchado, preferiram cadeia, de onde sempre saem rapidinho. Concordei com meu gato. A PEC 37 só não saiu porque a gurizada foi às ruas gritar. Mas algum clã político chamará para si as honras da história e haverá quem vote neles. Tenebroso. Para arregalar mais ainda os olhos azuis nublados do meu bichano filósofo e revolucionário, Renan Calheiros encaminhou à votação o projeto que torna corrupção crime hediondo. Ele. Renan Calheiros. Suicídio anunciado? “Como podem ser tão descarados?”, Miminho miou, grosso. Que desde que começou essa história de manifestação país afora ele mia assim. Grosso. Insatisfeito. Rebelde. Feroz. E coisa mais fofa.
Miminho percebeu meu olhar de ternura e ficou fulo. Pedi que ele entendesse, sou de uma geração que foi proibida de falar nalguns momentos, noutros apanhou, foi às ruas, teve umas conquistas, decepções, etc. Depois viu a passividade tomar conta da Nação. Impossível não se emocionar com a luta de hoje. Pena esses bandidos, que se metem no meio sem perceber que, estragando o momento, condenam-se a continuar meros bandidinhos. Que nem chegarão a bandidões. Mas é Brasil, sempre pinta um salteador no meio. Na ditadura tinha bandido. Na luta contra a ditadura também. E na Copa ou em manifestação, sempre surge quem só queira se locupletar.

Miminho não entendeu meu momento olhos úmidos. Bradou que não queria ser mais a coisa fofa da casa e fim de papo. Simbolizar a beleza era excludente, não o representava. Nada de chamar de gato ou gata só os plasticamente privilegiados. Gato também era o feio e pronto. E ele, dali em diante, não queria mais colo, cafuné, leite morno e coisa nenhuma. Tá, leite morno pode continuar, ele miou, depois de pensar um pouco. Desde que fosse da minha sogra. Ou melhor, da Mimosa. Todas as demais metáforas de fofura estariam banidas e liberadas apenas ao João Ernesto. Bebê ainda vai. Gato não. Olhei pra ele. Cuidado, há outras PEC por aí, avisei. Ele pulou. Foi pra rua. Que o pulo do gato é igual gota d’água. Instantâneo, surpreendente e irreversível. E a passividade é cômoda. Mas a inquietude será sempre mais bela.
Na ditadura tinha bandido. Na luta contra a ditadura também. E na Copa ou em manifestação, sempre surge quem só queira se locupletar.