Cap Oscar Bessi Filho

Sinaleiras e Sinal da Cruz

24 - Bessi no trabalho (Small)

Estou decidido. Entrei de cabeça na guerrilha contra a ditadura dos automóveis. E, ao contrário do Araguaia, esta vai dar certo. Embora nossos inimigos também sejam muito mais ricos, potentes e prepotentes, não faremos atos terroristas e nem pegaremos em armas. Nem nos venderemos por mensalões no futuro. Só queremos espaço. Respeito. Nós, o Movimento dos Sem Motor. E os Atropelados Anônimos da Nação.
Nas estradas e nas vias urbanas, me junto aos esquecidos pelo planejamento urbano, aos desprezados pelos gestores de trânsito e secretários de obras. Queremos espaços para as outras personagens do trânsito. Por enquanto, sei que os educadores estão do nosso lado. E alguns militares – o que pode ser um bom sinal. O que pedimos? Um golpe. Na consciência dessa minoria que sufoca (sim, ainda é minoria, mesmo que febrilmente avance e atropele). Queremos nosso naco de chão. Nossa chance. Nas calçadas e nas pistas de rolamento. Queremos respeito aos ciclistas, aos cadeirantes, aos pedestres, aos carrinhos de bebê. Queremos atravessar a rua sem precisar fazer o sinal da cruz sempre.
Dia desses, numa esquina da vida, estávamos eu e duas senhoras aguardando o sinal. Sinaleira de três tempos num cruzamento movimentado. Fechou lá, abriu cá, fechou cá, abriu acolá, e assim foi de lá pra cá e pra acolá em série e sem dar trégua. Nem um mínimo intervalo aos pedestres. Só os carros. Eles. Os donos de tudo. Quanto tempo esperamos? Não sei. Foi um tempo que pareceu infinito.

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Uma das mulheres tinha um carrinho de bebê e já cogitava, com a outra, dar uma volta imensa para evitar aquela esquina. Eu me indignei, pus os pés na faixa de segurança e, num gesto napoleonesco, disse a ambas, “bamo que bamo!”. Braço levantado e mão espalmada, atravessei a rua com elas. Pisando na faixa de segurança como quem pisa na Faixa de Gaza. E veio um coro de buzinas e palavrões de motoristas que não podiam esperar os 15 segundos de nossa travessia. Enquanto nós há cinco minutos não conseguíamos passar.
Por que essas malditas sinaleiras sem espaço para o pedestre? E a criança que volta da escola, o idoso, a mãe com bebê, o cadeirante? Os gestores públicos são assim tão insensíveis (peguei leve, podia usar outro adjetivo) que não enxergam o que passa seu povo? Por favor! Sinaleiras que pensem no pedestre, já! Em todas as esquinas!