Seus livros

Publicado no jcb 237, Março 2016

Últimos lançamentos de Oscar Bessi

O Silêncio mais profundo,  um romance policial, da Editora Alcance;

O lobo e o homem, obra de crônicas, da Editora ler é poder;

Um caminho no meio das pedras, obra juvenil, da Atchim! Editorial;

O outro lado do caleidoscópio, literatura juvenil, da Editora Dubolsinho;

Calibre 40 – conto, da Editora Cataventos; e Marx não foi á praia, um livro de crônicas, da Editora Cataventos. Livros a venda na livraria Saraiva e na livraria Cultura em todos os Shopings, da Capital do Estado.

 

24 - Bessi no trabalho

 

 

 

 

Capitão Oscar Bessi
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Não somos vadios – Carta aberta ao deputado Boessio

Publicado no jcb 235, Outubro de 2015.

“O homem arruína mais as coisas com as palavras do que com o silêncio.” (Gandhi)

Vou me permitir a dispensa desses pronomes de tratamento pomposos, comuns quando nós, do povão, precisamos nos dirigir aos nossos empregados mais “elevados” (afinal, nós que os pagamos para que trabalhem para nós, não?). Até porque o senhor me ofendeu, o que automaticamente implica numa dispensa de respeito da minha parte. Que não se preocupe, não usarei. Não costumo ofender pessoas que nem conheço. E eu não o conheço.
Antes, vou explicar: sou escritor. Não vadio. Mas escritor não é profissão no Brasil, então na verdade sou Policial Militar, o único que, como escritor, tem a honra de escrever para um grande jornal em nosso país. Sou mais um soldado do povo. Não sou dado à vadiagem.
Tudo o que já escrevi na minha vida, todos os livros que publiquei, artigos, crônicas, poemas e prêmios literários que recebi, foram produtos de minhas horas de folga. Pois nem nestes momentos costumo vadiar: escrevo, leio, cuido dos meus filhos, cuidei muito tempo dos meus pais doentes, faço palestras para estudantes – caso se interesse pelo conteúdo, visite meu site (www.oscarbessi.com.br)-, associações comunitárias, igrejas, empresas ou quem mais estiver a fim de saber sobre cidadania e instrumentos de humanização para que possamos diminuir a violência cotidiana. Uma intersecção que me motiva. Enfim: o que escrevo aqui no Correio do Povo, embora eu não saiba se o tens o hábito de ler.
Hoje estou doente. Preferia, de coração, não estar, mas pago o preço de trabalhos quadriplicados e alguns senões de sobrecargas particulares. Acumulei todas as funções administrativas e operacionais de um batalhão e o autorizo a ver meu histórico policial, (sério, não me importo). Se não cansar de ler, saiba que ali verá menos de 5% de minha atuação nas ruas, ao lado dos meus soldados, algo que sempre priorizei (penso que nosso povo paga impostos para isto), mesmo sabendo que minhas atribuições burocráticas eram consideradas mais importantes. Certo, ninguém me mandou escolher esta profissão. Tampouco tolerar, passivo e obediente, o resultado histórico da falta de estrutura das corporações de segurança pública, assim como se costuma fazer na saúde, educação e outras áreas. Competência que não falta ao se dar ágil guarida a inúteis – e me questionei isto, com todo respeito, ao ler sobre a quantidade de assessores demitidos após uma crise pessoal do Deputado Jardel. Que utilidade teria tanta gente, com tão belo salário, num único gabinete? Cabem naquele espaço? Sim, estou doente e é de uma forma séria. Como outros servidores, arco com os custos dos meus remédios e tratamento, já que os médicos correm do IPE e, desamparados, temos que correr para qualquer lado. Após 25 anos e 7 meses na ativa, não pensei que passaria por uma situação assim e não aprecio vivê-la. Rogo estar bom logo, pois tenho saudade das ruas, dos meus colegas de farda, das escolas, das comunidades.
A sorte que sigo atuando em eventos como escritor, onde a arma e o conflito não estão presentes e, assim, não coloco em risco quem jurei defender. E a literatura, além de evitar um crescimento da minha doença, serve como terapia. Sim, escrevo por instinto de cidadania, mas também para me curar. E não me sinto vadio.
Perdoe por explicações pessoais. Como é carta aberta, preciso me deixar transparente. E fiquei ofendido com a afirmação sobre os vadios, pois me ela inclui de forma direta. Servi na zona norte de Porto Alegre, em Alvorada, em Canoas, além de cidades do interior. Lugares onde coisas nada fáceis foram vividas – mas que são do cotidiano policial, eu sei, como ser quase morto com um tiro no rosto, ou ver um colega morrer ao teu lado em confronto. Normal. Mas vivi momentos ímpares de felicidade em meu ofício. Quando resolvi dedicar quatro anos de minha juventude para obter meu diploma, tendo apenas alguns finais de semana para ir para casa, ou quando cheguei a trabalhar 36h ininterruptas numa viatura do 11º BPM, na capital, ou quando passei com minha equipe por cinco noites a fio enfiado no mato, em cerco de assalto a banco, não me senti vadio. Estou chateado por ser chamado assim.
Tenho colegas de farda fantásticos. Conheci professores maravilhosos. Gente que, mesmo tratados com desrespeito e descaso, seguem na luta de uma causa. Querem um mundo melhor. E não apenas para os seus filhos, mas para os filhos de todos. Essa gente batalhadora que, como eu, já frequentou tantas vezes as listas negras dos que devem na praça, essa gente que se obriga a jornadas alucinadas e triplicadas de trabalho para garantir um mínimo de sustento e uma vida decente aos seus. Essa gente, deputado, não é vadia. Um professor de 60h, que trabalha manhã, tarde e noite, que fora destes horários ainda precisar ler, planejar aulas, estudar, corrigir provas e trabalhos, não é vadio. Um soldado que leva um tiro e fica paraplégico, ao enfrentar assaltantes, não é vadio. Mas os chamaste assim.
Muitos desses servidores ainda dedicam suas horas de folga para realizar trabalhos voluntários em suas comunidades. Para mudar a vida das pessoas que o estado esqueceu. Sei disto, pois me orgulho de também participar, deputado, em algumas frentes, e tenho muitos parceiros nesta luta. Nenhum vadio.
Não somos vadios quando ficamos doentes de não suportar mais, por tantos anos sem trégua, a sobrecarga de trabalho para tentar corrigir as falhas de um estado mal administrado. Sim, mal administrado. E não posso usar outro argumento se temos Superporto, temos Pólo Petroquímico, temos REFAP, temos grandes indústrias, temos invejosa produção agro-pecuária e por aí vai. Aí vejo o Acre. O que tem o Acre? Por que o pobre Acre, que não tem nada disso, está melhor do que nós?
Só sei que não é por causa destes que o deputado chama de vadios. Ganhamos muito pouco para quebrar um estado tão potente. Não somos perfeitos, todo grupo humano tem seus bons e maus integrantes. Mas a explicação desta quebradeira, se é que há quebradeira, está em outras mãos, literalmente.
Não fomos nós, servidores comuns do estado, nestas lidas básicas de atender o povo nos campos e cidades deste pampa, que fizemos farras com combustíveis, diárias e por aí vai. Nem nos concedemos gordos aumentos (como aconteceu já duas vezes, em poucos anos, com os deputados estaduais), embora até precisássemos, e muito. Nós pegamos um ou mais ônibus lotados ainda na madrugada, ou pagamos combustível do nosso bolso, para ir ao trabalho. Não temos carro, gasolina e motoristas custeados pelos impostos dos cidadãos. Somos apenas cidadãos comuns, deputado.
Não somos vadios.
Espero, sinceramente, que peça desculpas aos policiais que arriscam sua vida todos os dias e noites, aos professores que são a única porta de esperança de tantos excluídos pelo próprio estado, a todos os servidores que se entregam para atender o povo gaúcho e, que por tanta dedicação sem ao menos uma nesga de respeito como recompensa, adoecem, ou têm a necessidade de parar um pouco para não morrer. Os que, hoje, precisam levar até papel higiênico ao seu local de trabalho para que um mínimo de decência sobreviva.
Minha manifestação não traz raiva. É apenas um lamento que brota desse resquício de dignidade que insistimos em carregar conosco. E sua declaração praticamente anula o efeito do todos os remédios que tomo.
Torcerei para que se desculpe. Nem com palavras, com ações. Preferimos. Um olhar mais atento e humano respeitaria quem não merece ser chamado assim.
Não somos vadios, deputado.
Nunca seremos.

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Capitão Oscar Bessi
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Palavrão

Publicado no jcb 234, Agosto de 2015.

Não sou um sujeito habituado aos palavrões. Mas, vez em quando, eles escapam. Dia desses, por exemplo, eu cozinhava, fui fritar um ovo e me queimei. Barbeiragem masculina. O grito furioso veio meio milésimo de segundos depois. Outro dia, o culpado foi o Nilmar. Perdeu um gol imperdível e, quando vi que a bola não entrou, o palavrão saiu, junto com o pulo que dei no sofá e o soco no ar. Não posso assistir futebol ou ficar brabo, que aí o lado italiano de pai fala mais alto. E bem alto. Tenho esse defeito e é bem chato, reconheço. Acho que foi um dos motivos para o psiquiatra dobrar meus remédios: se a tristeza é nociva, certos gritos também são. No mais, sou calmo. E falo pouco, exceto quando me empolgo num debate. Ou quando converso com estudantes sobre literatura. Aí, fico tagarela. Mas não digo palavrões.
E os palavrões existem em todas as línguas da humanidade. Conheço os nossos, óbvio, e alguns em inglês – resquícios de certos filmes proibidos que vi na adolescência -, poucos em espanhol e só os mais corriqueiros em italiano. Alguns em alemão já me ensinaram. Um palavrão em japonês, ou em árabe, só entendo pela careta. Coisa incrível é que todos eles remetem às mesmas imagens: sexo, órgãos sexuais, necessidades fisiológicas. Tento entender o sentido disto. O que me fez, ao queimar o dedo, gritar o nome mais vulgar da genitália masculina, assim, sem pensar? Qual a relação? Não, nada a ver com alho ou com o ovo, pois já gritei o mesmo ao dar uma topada e bater com a cabeça na porta do carro. Qual o sentido de relacionar uma profissional do sexo com cocô e gritar “puta merda!” só porque o Nilmar deu um bicudo bisonho na cara do gol? Outro dia, no terminal bancário de autoatendimento, um sujeito ao meu lado resmungou o nome alternativo da vagina ao ver seu extrato de conta. E não era cara de prazer, a que ele fez. Vá entender.

Aliás, nos momentos íntimos, de prazer intenso, “as palavras sujas” (como dizem os poetas) percorrem as bocas mais recatadas com desenvoltura, desejo e leveza. No trânsito também aparecem fácil, feito buzinas, e até o saudoso Scliar pediu desculpas públicas numa crônica por ter xingado – e decepcionado – uma senhora, sua leitora. O palavrão é uma ciência, dizem que mexe com algo que está no porão do nosso cérebro. É uma libertação, um escape nos instantes de sensações máximas, seja tensão, dor ou prazer. Aham. Por isso desconfio dos norte-americanos. Bah, que povo é esse que grita “Deus!” quando tem um orgasmo?

BESSI

Capitão Oscar Bessi
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O Merdólogo

Publicado no jcb 233, Junho de 2015.

Tenho um romance arquivado há muito tempo, que nunca publiquei. É a história de um bando que vai a uma pequena cidade da fronteira assaltar uma igreja, ao descobrir que o padre guarda, nalgum lugar do templo, tesouros valiosos num baú. Acontece que o tal tesouro não é bem o que eles pensam. Mas não vou contar a história. Vai que um dia publico.
Neste livro, que nunca foi livro, há um personagem que considero um dos mais interessantes que já criei. Trata-se de um velho cientista – é o que ele diz ser, um merdólogo – empenhado em comprovar a igualdade da essência humana. É um bom sujeito, idealista. Mas meio doido. Que todo sujeito bom, e convicto da igualdade, é um louco que anda na contramão dessa humanidade gananciosa e egocêntrica. E ele usa, como instrumento da prova máxima de que todos na essência são iguais, a análise dos excrementos humanos. Por isso sai pela cidade colhendo fezes, catalogando, armazenando e analisando em seu laboratório – um lugar muito malcheiroso, diga-se de passagem. O resultado é conclusivo.
Na sua pesquisa, ele passa por dificuldades. Quer provar que, num resultado final que não a óbvia morte, todos são iguais. Absolutamente iguais. E é no cocô que todos se equiparam: o doutor e o analfabeto, os belos e os feios, homos ou héteros, donos do mundo e descamisados. Todos se tornam a mesma porcaria. Teve gente que não quis colaborar com sua pesquisa – como uma modelo, que alegou não fazer estas coisas nojentas – e ele se obrigou a operações complexas para furto de necessidades fisiológicas alheias. Acabou preso. E solto em seguida, algo incomum para os loucos, mas sempre possível para os ladrões.
Na cadeia, ele conhece outro tipo de sujeira: a subjetiva. Aquelas que os humanos fazem sem que seja necessário sentar-se ao vaso. E esta sim, é complexa e múltipla. Isto muda seu estudo e amplia o leque de possibilidades. Avaliar a escumalha concreta que cada um faz é fácil (pelo menos para ele, eu já não teria estômago). A outra que é dose: as “cacacas” que se faz em nome do amor, ou do partido, ou do rancor, ou do ego. E lembrei-me do meu bom louco merdólogo ao ler sobre a prisão dos figurões da FIFA, umas votações no Congresso e outros poraís. Eis porque meu personagem empacou na pesquisa e eu empaquei no romance. É imundície demais, não dá pra catalogar tudo. Mas ainda concordo com ele: também é impossível hierarquizar. No fim das contas, tudo apenas fede. É da humanidade.

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Capitão Oscar Bessi
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Polícia da Luz

Publicada no Jornal Ibiá e Folha de São Borja

Mais um aumento estratosférico na conta de luz. Deu. Agora, o bicho vai pegar. As trevas vêm aí. O futuro é Black. Mas sem bloc, pra não gastar energia. Medo do escuro é coisa do passado: o que apavora, hoje, é luz acesa. E resistência de chuveiro.
Fabricantes de velas e lampiões comemoram, pois nem a tal lâmpada econômica consegue economizar mais coisa alguma. Split? Só para quem ganhou na loteria. Ou no petrolão. Contra o calor, leleque-leque-leque. E olhe lá. Nada de abanar muito forte, que aí vai suar, depois tem que carregar no desodorante, o spray atinge o ozônio, o buraco aumenta, o buraco esquenta e, aí, o que era ruim fica pior.
Toda crise traz seus profissionais de ocasião. Agora, a Polícia da Luz é a nova moda nas casas. Alguém da família (geralmente o seu mantenedor, ou mantenedora, que é quem sente a queimadura no bolso) se autoescala para exercer a fiscalização dos gastos. Se, na sua casa, ninguém consegue fazer isto, contrate um profissional especializado. O pessoal do DOPS, por exemplo, anda desempregado até hoje.
– Rá! Esqueceu a lâmpada acesa! Apague! Agora! Ou viverá no escuro para sempre.
O fiscal da luz tem que ser rígido. Sisudo. Chato. Inflexível. Um misto de Gestapo, Robocop e zagueiro do Bagé. Tem que seguir os demais habitantes da residência por todas as peças, detectar o excesso na hora e intervir imediatamente, antes que seja tarde demais e o relógio da luz gire mais que roleta de cassino. Exemplo: bater na porta do banheiro quando o banho ultrapassa o limite de dois minutos. Fundamental.
– Mas recém entrei, pai! E tô lavando o cabelo!
– Acabou. Vou desligar a chave.
– Nãããuô!.
– E amanhã, já sabe. Corte esse cabelo!
Já se sabe o resultado desses aumentos. Sob estresse, cônjuges se separarão. Sobrecarregadas de gastos, empresas fecharão. Sem TV, mais bebês nascerão (que pelo menos os namorados carregarão menos seus smartphones e, de verdade, namorarão. Isso é ruim, mas é bão). Agora, o pior de tudo, mesmo, é uma triste constatação: até aquela luz, lá no fim do túnel, pode desaparecer. E de uma vez por todas.

24 - Cap Bessi

Cap Oscar Bessi Filho

 

Manifestação

Publicado no jcb 231, Março de 2015.

Com tanta gente na rua, alguns bichos domésticos decidiram se manifestar também. Só alguns. Afinal, são águas de março fechando o verão. É miau, é pau, é pedra. E pode ser o fim do caminho. Ou não. O Sinditotó, grupo de oposição que sempre rosna contra qualquer movimento – social ou de carteiros no portão – foi o primeiro a ganhar as ruas.

– Impeachment desses donos! Já!

– Hum. Mas é quem te dá uma boquinha. Aquela ração básica de todo dia. Vai morder o quê, daí?

– Ih. Esse aí é da turma do Petrocão. Ou da Lava-gatos.
O Cut-Cut-Fófis, que reúne gatinhos de madame, modelos para adesivos e etc., não gostou da provocação.

– Nós também estamos na luta!

– Pelo quê?

– Ah. Sei lá. Mais colo, mais cafuné. Mais banho com xampu no pet shop e lantejoulas nos lacinhos. Essas coisas básicas. E pelo direito de não sermos atacados por vira-latas nas ruas, que, benzadeus, este país tá fora de controle.

Poodles brancos, e paulistas, concordaram. Pediram pena de morte e Serra na presidência. Um grupo de pardais de extrema esquerda passou voando baixo e veloz. “Vão atacar o palácio do governo?”, perguntou um cãomunista autêntico, das antigas, sorrindo com seus velhos caninos quebrados pelo DOPS. “Não, eles só viram uns farelos na calçada”, respondeu com desprezo o Yorkshire ao lado, integrante dos new communist – a nova versão marxista, devidamente domesticada pelo capitalismo ex-selvagem, muito mais fashion com aquelas coleiras em tons lilás, no lugar dos vermelhos mofados da foice e martelo.

Um bloco de baratas tontas gritou “tamo junto!” e quis saber para que lado ir, a fim de engrossar a massa. Moscas anunciaram, só entrariam no final, depois da polícia e da… Coisa feita. Ratos se articularam para saquear as lojas. Até que passou um coelhinho, na dele, ligeiro e concentrado como quem só cuida do seu nariz, já inquieto o suficiente por natureza. Mas a galera não perdoou e passou a gritar, em coro: “Cu-e-li-nhu! Se eu fosse como tu! Tirava a mão do bolso e enfiava… ”.

Horrorizado, ele foi detido e interpelado pelos líderes do protesto.

– Bah, gurizada. Consegui emprego num super. – explicou – Vou me vestir de Bugs Bunny pra anunciar chocolate. Pô, preciso dessa grana! Moro numa gaiola. Como grama e o pão que o dono amassou!

Não deu tempo pra mais nada. Chegou a tropa de choque. Os capas pretas. Gatos correram, os ratos correram dos gatos, as moscas e baratas fizeram selfies. Só os cães revoltados ficaram. E latiram. Latiram muito. Até ganharem um osso pra cada um e decidirem que, enfim, o melhor mesmo ainda é não morder.

24 - Bessi no trabalho (Small)

 

 

 

 

 

 

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Retratos

Precisava tomar uma atitude. O que a outra tinha de tão especial? O cabelo? Pode ser, tem homem que é obcecado por loira. E os dela eram curtos, o contrário dos seus. O corpo? Dificilmente, eram quase que da mesma altura e peso. Talvez fosse fumante. É isso, o Cláudio fumava. Desde adolescente. Tiveram algumas brigas por causa das bitucas jogadas no pátio, ou pela fumaça fedendo na casa inteira. Nunca fumara na vida, mas podia começar, que é que tem. O Ministério da Saúde não advertia sobre o seu casamento estar por um fio.
Apanhou a bolsa, decidiu comprar um maço de cigarros. Queria ver a cara dele, quando chegasse.
Descobrira por acaso que por marido tinha uma amante, outra vez. Odiava ir ao shopping, mas precisou comprar o creme contra a alergia do filho logo numa farmácia que só tinha lá. Ao cruzar a praça de alimentação viu aquela cena, Cláudio com a outra, agarrado, trocando beijinhos. Após o susto e a vertigem, ficou espiando os dois, de longe. Compraram sorvetes. Saíram dali direto ao cinema. Quase desmaiou. Ele não a levava ao cinema há mais de cinco anos.
Eram colegas de escritório, descobriu, no dia seguinte. Pouco mais jovem que ela, frequentava uma academia da zona sul – será que era o Cláudio quem pagava? – e gostava de usar saias curtas e blusas decotadas. Indignada, foi até uma loja de roupas jovens e fez um rancho. Olhou-se no espelho. Nunca vestira algo que deixasse as pernas tão à mostra. Fez pose, como se estivesse no sofá quando o Cláudio abrisse a porta, à noite. Acompanhou o desenho da própria coxa, era importante aparecer a calcinha. E se depilar.
Com o cigarro aceso entre os dedos, então, perfeito.
Levou a mão à testa, quase ia esquecendo. Apanhou um caderno velho, folheou as páginas, nervosa, onde tinha anotado aquele maldito telefone?
“Mirela? Ainda tem horário pra hoje? Quero cortar tudo. Não, menina. Não enlouqueci. Depois te explico.”
Agendou a cabeleireira. Às quatro. Dava tempo. Queria ver a cara do Cláudio, quando chegasse. Queria vê-lo resistir, queria ver ele não desejá-la.
Ligou outra vez.
“Só mais um detalhe, Mirela. Tem tinta loira?

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A escravidão e o professor de 60 horas

Publicado no jcb 229, Dezembro de 2014.

Conheci uma professora de sessenta horas, dia desses, que resolveu me contar qual era o seu salário. Ela é professora pública. Ela tem curso superior e uma pós-graduação. Gastou o que não podia para se formar. Conseguiu. Hoje, para uma quase decência, é obrigada a dar aulas no regime de sessenta horas, é o jeito que encontra de ganhar um pouco mais.
Sabem o que é isto? Sessenta horas é aquela jornada onde o professor dá aulas em três turnos: manhã, tarde e noite. E estamos falando de manhã inteira, tarde inteira e noite inteira. Todos os dias da semana. Sujeito a atividades aos sábados. Pois sabem quanto ela me disse que ganha, por mês? No total? Inacreditáveis 1,7 mil reais. Mil e setecentos. Para não ter uma hora de folga em nenhum dia da semana, já que tem os deslocamentos entre uma escola e outra, uma em cada turno. Almoça correndo. Faz lanche, não janta. Mal vê a família durante a semana toda. Que tempo sobra para estudar e preparar aulas? Que tempo sobra para viver?
Mil e setecentos deve ser o salário do mais furreca Cargo de Confiança na mais longínqua e paupérrima cidade do país. Estes outros aí, que se penduram em governos municipais, estaduais e federais, na maioria do tempo passeando e fazendo campanha para seus benfeitores, ganham muito mais que um professor. Um deputado traficante, como este do helicóptero pego cheio de cocaína, dá esses 1,7 mil de gorjeta ao motorista que o levou para negociar propinas. Um atacante do Grêmio e do Inter não treina se receber isto por hora. Um chupim de partido recebe isto para faz Um chupim de partido recebe isto para faz farra assim, ao natural.
Que desaforo! Que barbaridade! Que crime! Isto é escravidão, e logo na única área que pode salvar o futuro deste país: a educação. Mesmo assim, a gente encontra professores empolgados, vibrantes, apaixonados. Guerreiros. Quem quer ser professor, deste jeito? Só os apaixonados. Que estímulo se dá aos jovens? Claro que vão preferir virar traficante, assaltante e outros bandidos de nomenclatura mais respeitável. É ruim de pensar nisto, pois dá vontade de pegar o mango do meu amigo Simão e sair caçando esses gestores políticos brasileiros. Chê, eu fico doido com isto. Não vale sete reais para os governos a hora-aula de um professor público. Uma cerveja num bar vale mais que uma aula de cidadania.

Eis o Brasil.
O país da copa e da latrina.

 

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Bola de meia, bola de gude, bola de neve

Publicado no jcb 228, Outubro de 2014.

Fernando Brant é meu colega de editora em Minas Gerais. Já tivemos lançamentos juntos nas tradicionais Passarelas Literárias, de BH. Cronista idolatrado na capital mineira e de composições definitivas para a música popular brasileira, seu segredo é tocar a alma. Como ao lembrar de que existe amizade, palavra, respeito, caráter, bondade, alegria e amor, como diz a música “Bola de meia, bola de gude”. Por isso, digo que ele e Milton Nascimento encontraram a saída para nos salvarmos desta violência insana nos estádios de futebol. Talvez a única maneira para que esta guerra burra e covarde, como na batalha vista no dia 08/12/13 em Joinville, cesse de uma vez por todas e pare de ser a fotografia do nosso futebol. É simples. eles mataram a charada: tirem os adultos de cena.

Adultos não sabem brincar. Não sabem se divertir, confraternizar, conviver. Então que tudo se torne bola de meia, bola de gude e nada além. Deixem o futebol para as crianças. Melhor: deixem o mundo para as crianças. Meninos não teriam brigado nas arquibancadas. Meninos teriam brincado. Meninos poderiam ficar misturados, mesmo sendo de vários times diferentes, que tudo seria folguedo. E se corressem pelo estádio, estariam apenas brincando de pega-pega. Pois os nossos meninos só conseguem ser maus depois de ensinados a serem assim. Pelos pais ou pela vida. Infelizmente já vi, em escolinhas de futebol, pais na torcida incentivando a violência, a jogada maldosa, até humilhando adversários com palavras sujas. Bah, e os adversários também eram crianças! Iguais aos filhos deles! Não, não me venham com a máxima de que isto “faz parte do futebol”. Agressão não é coisa do futebol. Violência, ofensa, covardia não é coisa de futebol. De esporte nenhum. Não era para ser, pelo menos.

Não adiantará de nada discutir se a polícia pública deve ou não estar num evento privado. Não adiantará buscar responsabilidades em todos os níveis se estes mesmos níveis, em nome dos seus lucros, não mudarem culturas. Não adiantará frear torcidas organizadas se outras feras se organizarão. Muito menos mudar locais sem mudar pessoas. Não adiantará falar em esporte se as provocações, em nome dele, serão bestiais e humilhantes. Talvez a bola de couro esteja murchando e as bolas de pano, ou as bolas de gude, tenham mais graça, como diz a música de Fernando e Milton. Os adultos são bons de negociatas. Bons de lucros. Suas jogadas são outras, onde valem rasteiras. Mas eles, adultos, não sabem acreditar que coisas bonitas não deixarão de existir. E aí a violência é uma bola de neve.

 

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Imortal da Academia Montenegrina de Letras

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No último dia 23 de Agosto foram empossados quatros novos membros da Academia Montengrina de Letras. Tomaram posse os escritores: Oscar Bessi Filho, ocupante da Cadeira de Nº 13, que tem como patrono Glauco Flores de Sá Britto; Maria Isabel Petry Kehrwald, ocupante da Cadeira de nº 14, que tem como patrona Élida Druck; Márcia Martiny, ocupante da Cadeira de nº 15, que tem como patrono Othelo Rodrigues Rosa e, Carlos Fernando Leser, ocupante da cadeira de nº 16, que tem como patrono Celso Pedro Luft.
O primerio acadêmico citado, Oscar Bessi Filho é Capitão da Brigada Militar, serve no 5º BPM, em Montenegro, também, filho do Cel da BM, de quem herda o nome. O Cap Bessi é colunista do jornal Ibiá, de Montenegro e do jornal Correio do Povo, de Porto Alegre, além de autor de diversas obras de contos e crônicas. Juntamente, com os Coronéis Joaquim Moncks e Moisés Menezes, são estes três, as atuais expressões das letras brigadianas, de maior repercussão acadêmica ou em mídia de abrangência geral.
Na foto ao lado, Bessi com seu pai, o Cel Bessi, na solenidade (formatura) do recebimento de seu espadim Tiradentes, na Academia de Polícia Militarem Porto Alegre.

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