Carona com segurança

 

Publicado no jcb 236,Nov/Dez 2015

Quando 2º tenente fui designado para comandar o pelotão de São Francisco de Assis, subordinado ao então 1º esquadrão de policia rural montada independente em Santiago.

Como era comum na época, montei uma patrulha composta por uns dois ou três componentes do pelotão e rumei, para o interior do município a fim de verificar problemas relativos ao abigeato que assolava a região. Nessas ocasiões, aproveitávamos para chegar em bolichos à beira das estradas e promovíamos revistas e desarmamentos em frequentadores, que comumente, se envolviam em peleias nem sempre com resultados muito bons. Lesões corporais eram comuns nesses casos e, às vezes, até homicídios.

Para não fazer injustiças com São Chico, saliente-se que as brigas em bolichos de campanha e bailantas, ocorriam também em outras localidades.

Eventualmente, encontrávamos alguns gaúchos transitando pelas estradas, ou a cavalo a pé, que abordávamos para revistá-los, com especial cuidado quanto aos que usassem pala ou poncho. Essas indumentárias facilitam a ocultação de alguma arma já empunhada em reação à revista.

Quando ocorriam certas reações de violência ou sem gravidade, era comum darmos a esses “cueras” o chamado “chá-de-banco” que consistia em colocá-los na corroceria da viatura, normalmente uma “pick-upp”, para largá-los longe da casa do valentão para fazê-lo caminhar um pouco. Perguntado onde morava, rumávamos em direção oposta. Claro que isto só ocorria quando a reação do homem chegava até no limite, talvez, de um desacato ou resistência, pois se ela se caracterizasse como sendo crime mais grave, ele era preso em flagrante e conduzido para ser autuado.

Pois foi na estrada que liga Manoel Viana à localidade chamada barragem que o fato pitoresco aconteceu.

Ao abordarmos um gaúcho que ia à pé pela estrada, este esboçou pequena reação, suficiente para nos dar a certeza de que ele estava armado. Desarmado o melenudo, como acontecia nesses casos, o Mendonça, bom soldado hoje descansando na reserva, perguntou onde ele morava. Como ele apontou prás bandas de Manoel Viana, nós seguimos para direção oposta, ou seja, a da barragem. Após cerca de uma légua, mandei que o conduzido desembarcasse e rumasse para sua casa. Realmente, todos estranharam e rumassse para sua casa. Realmente, todos estranharam o fato do gaudério não ter reclamado do “chá-de-banco”, mas…

Passados dois dias, já na cidade, fui informado pelo João Luiz, excelente auxiliar que deu baixa para seguir outra profissão com sucesso, que o cuera que largáramos perto da barragem já levara outro “chá-de-banco” antes com outra patrulha, isto há alguns meses e, sabedor disto, ao ser perguntado pelo Mendonça onde morava, indicou Manoel Viana. Na realidade, o local oposto de onde residia.

O resultado é que, ao tentarmos dar o “chá-de-banco”, no esperto melenudo, terminamos dando-lhe uma carona.

Há quem diga que ele sempre carregava uma minúscula e velha faquinha para quando se encontrasse com viatura da brigada militar ganhar uma carona com toda segurança.

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Cel Afonso Landa Camargo

aafonsolc@gmail.com

Outros textos do autor em:
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