O bêbado

Publicado no jcb nº 213, de Fev de 2013

Conto memorialista do livro “Política & Polícia da terrinha”, do Cel Afonso Landa Camargo

Subordinado ao destacamento de São Francisco de Assis, que eu comandava como tenente, estava o Grupo (GPM) sediado na vizinha cidade de São Vicente do Sul. Pertencemos ao saudoso 5º Regimento de Polícia Montada.

Certa feita foi visitar o GPM e, após os contatos de praxe eu e o Adão, soldado motorista, iniciamos o retorno a São Chico. Era madrugada quando, logo ao passar pela Encruzilhada, localidade intermediária onde se deixa de lado a estrada que vai para Cacequi, veio em sentido contrário um caminhão em alta velocidade, coisa incompatível para aquela “estrada de chão” com muita poeira e pedras. Mas como era impossível com a nossa velha “pick-up” fazer a volta e seguir o caminhão, após os comentários, seguimos adiante.

Já passados uns seis quilômetros, a luz da viatura incidiu, no meio da estrada, sobre um corpo caído. Imediatamente, ligamos o fato ao caminhão que passara por nós e imaginamos encontrar um cadáver. Com certo cuidado, pois poderia tratar-se, também, de emboscada armada para nós, paramos a viatura a certa distância. O Adão colocou-se, com o revolver em punho, em posição de reagir a um possível ataque e eu me dirigi, também de arma em punho e cuidadosamente, até o corpo.

 

Ao chegar perto, toquei-o com o pé e ele, falando alguma coisa ininteligível, trocou de lado como a procurar uma forma de melhor acomodar-se. Ao mesmo tempo, uma garrafa que estava sob ele rolou por cima da poeira da estrada. Ao pegar a garrafa, verifiquei tratar-se de cachaça, ao mexer no corpo ali deitado, agora já com pouco mais de coragem, constatei tratar-se de um dorminhoco “gambá” que escolhera justamente a estrada para descansar.

Acordei-o e ele sentou em minha frente, esfregando os olhos feridos pela luz da viatura.Irritado com o susto pregado pelo “gambá”, atirei a sua garrafa de cachaça sobre a sarjeta e ela quebrou-se. O bêbado, bravo com a minha atitude, levantou-se com dificuldade e disse: “Mas quebrou a minha garrafa, seu…”.

Mas ao constatar que eu estava fardado e reconhecendo-me brigadiano, completou: “… É  é a nossa gloriosa Brigada Militar que está aqui!”. Como eu não poderia deixar o nosso simpático “gambá” no meio da estrada para dormir novamente, colocamos ele dentro da viatura e, para não voltarmos até Cacequi onde ele disse que morava, o levamos até a localidade próxima de Loreto, onde existia um posto da Brigada Militar.

Chegando ali, entreguei-o ao soldado que lá morava e mandei que ele fosse colocado no xadrez, ficando a porta aberta para que fosse embora quando desejasse. O soldado ainda teve o trabalho de lhe dar um cobertor para abrigar-se do frio.

Passados alguns dias, conversando com aquele soldado, me informou que ao levantar-se na manhã seguinte, foi até o xadrez e não maos encontrou o nosso hóspede.

O simpático “gambá” havia deixado o cobertor com um “muito obrigado” mal escrito com um pedaço de tijolo na parede da cela.

13 - Cel Afonso Ev Apesp (Small)